Despedi-me do Nuno apenas com um beijo e saí do hospital. Iria seguir o conselho da mãe do Nuno e ir para casa descansar um pouco e regressar com mais energias. Não consegui pensar em nada durante todo o caminho até casa. Quando lá cheguei tinha o Rafa e a Susana á minha espera. Quando me viram vieram de imediato ter comigo e abraçaram-me
- Ainda nem acredito que estás a passar por isto tudo sozinha meu amor!
- Susana, Rafa! Vocês são malucos…o que estão aqui a fazer meus doidinhos!
- Em primeiro… - começou a declamar o Rafael mas eu interrompi-o
- Não quero saber…abracem-me! – Não queria ouvir mais nada! Apenas sentir o abraço deles e mais nada, para além de que tinha um mau pressentimento! Acabei por ir para casa depois e descansei como já não fazia a algum tempo.
(Susana)
Desde que soube o que aconteceu ao Nuno e principalmente á Raquel nunca mais consegui tirar aquele assunto da minha cabeça tornando os meus treinos mais que péssimos. Passei todo o meu treino matinal a ouvir queixas do meu treinador e por causa do meu mau desempenho ainda tive que fazer mais vinte minutos de treino de ginásio. O Rafael acabou por passar pelo meu ginásio para me dar boleia para a faculdade pois já estava atrasada para a primeira hora da manhã.
- Rsrsrsrs. Que treino de merda! Nem um mortal consegui fazer em condições!
- Que exagero Susana!
- Que exagero nada! Mais valia ter ficado na cama pois neste treino não aprendi nada e ainda fico pior!
- Tenho a certeza que se for perguntar ao teu treinador como correu, ele não vai dizer assim tão mal do teu treino!
- Ai vai vai! Mandou-me fazer mais vinte minutos de ginásio! A sério…não sei se estou preparada para Outubro! – era já em Outubro que tinha o campeonato do Mundo e não me sentia nada preparada para tal
- Susana Maria! Não vamos começar já com as inseguranças ridículas! Tu és excelente e vais fazer um bom campeonato! Vamos lá estar todos para te apoiar sim?
- É muito fácil falar mas é mais difícil agir! Além disso acho que não estou em forma…parece-me que tenho uns quilinhos a mais não achas? – sentia-me ultimamente cada vez mais pesada o que me dificultava muito os exercícios mas sempre que tentava fazer “dieta” ou não comer parecia que engordava mais!
- Estou a ouvir mal certo? Eu não te ouvi dizer que tens quilos a mais pois não?
- Anda lá Rafa! Estou a falar a sério…tenho ou não?
- Susana…eu só não te olho nos olhos porque estou a conduzir mas vê se me ouves em condições! Se tu emagreces seja o que for, ficas reduzida a nada! Estás óptima como estás, além disso acho que já começaste a perder massa muscular com essa tua paranóia de estares gorda!
- Não perdi nada!
- Olha eu não vou discutir isso contigo porque não vale a pena! Mas se continuares com essa conversa ridícula levo-te a um hospital para te observarem já que o teu treinador não vê isso.
- Hospital?
- Sim, hospital! Aquele sitio para onde se levam as pessoas quando estão doentes!
- Mas eu não estou doente! Só estou gorda!
Ele faz uma paragem brusca na auto-estrada e com uma manobra rápida e perigosa para o carro na berma da estrada.
- Estás louco? Queres-me matar é isso?
- E o que estás a fazer a ti própria não é matar-te aos poucos?
- Não sei do que estás a falar! – sabia perfeitamente do que ele estava a falar mas não podia dar-lhe razão. O que estava a fazer era para um bem maior!
- Ai não sabes?
- Se eu estou a dizer que não é porque é não!
- Então… - ele foi interrompido pelo pai da Raquel que por acaso estava com cara de poucos amigos. O Rafa desceu rapidamente o vidro do seu lado para podermos falar
- Meninos o que vem a ser isto? Rafael não sabes que não podes parar aqui amenos que estejas a pôr em perigo os outros condutores? – falou com uma voz de autoridade como lhe competia
- Eu sei! Desculpe…mas uma coisa tirou-me do sério e tive mesmo que parar! É a última vez que paro sem uma razão suficientemente válida
- Espero bem que sim meu menino! Vá vão lá que já devem estar atrasados para a faculdade!
- Sim estamos…
- Espere! Como está a Raquel? Ele vem hoje ás aulas? – perguntei
- Não! Ela já deve estar novamente no hospital à espera que o Nuno acorde! Tentei demove-la mas sabem como a Raquel é teimosa…ela só volta a sair de lá com ele já acordado!
- Esteja descansado que vamos conseguir convencê-la a sair de lá! – tranquilizou-o o Rafa
- Ainda bem! Vá…tenham cuidado! – ele acabou por ir embora e vimo-lo a entrar para o carro da GNR abandonando o local. Depois fomos nós pois já estávamos atrasados e não voltamos a falar no assunto!
***
O meu telemóvel começa a tocar na minha aula e fico surpreendida quando vejo no visor o nome do meu treinador. Saio rapidamente da sala e atendo a chamada
- Sim, treinador! O que se passa? – perguntei ansiosa
- A Raquel?
- A Raquel ainda está no hospital ao lado do rapaz que lhe falei ontem, aquele que está em coma, lembra-se?
- Sim sim, lembro-me perfeitamente! Tens de lhe dar uma noticia a ela…
- Uma noticia…qual noticia?
- A operação que o treinador dela foi fazer correu mal e acabou por falecer á dois dias! Neste momento já está em Portugal e o funeral vai ser hoje á tarde!
- O quê?? Não…não! Como é que isso aconteceu…. – fiquei em choque com a noticia, não porque o conhecia assim tão bem mas aquele treinador era mais do que um simples treinador para a Raquel. Por vezes era um segundo “pai”…
- A operação ao joelho era complicada…o organismo dele não reagiu bem e pronto…acabou por morrer! Ele deixou uma carta para a Raquel…escreveu-a antes de ser operado! – desliguei o telemóvel sem dizer mais nada e corri para o pavilhão aonde se encontrava o Rafael. Ele estava a ter uma aula de basquetebol mas interrompi-a na mesma. Quando me viu entrar pelo pavilhão veio logo ter comigo
- O que estás aqui a fazer?
- O Pedro morreu! O Pedro morreu, Rafael! Ele morreu…
- Estás a brincar não estás? – abanei com a cabeça negativamente – A Raquel já sabe? – voltei a repetir o gesto anteriormente feito – Vamos ter de lhe contar….
- Ele deixou-lhe uma carta! Vou busca-la agora e vou logo directa para o hospital ter com ela.
- E o funeral é quando?
- Hoje! Vens comigo?
- Claro vamos lá!
***
Depois de termos ido buscar a carta ao meu treinador fomos em direcção ao hospital. Ao entrarmos deparamos logo com a Raquel sentada num banco na sala de espera ao lado do pai do Nuno. Entramos lentamente e ao me aproximar dela não consegui conter as lágrimas. Ela deu logo pela nossa entrada e ao ver-me naquele estado veio ter comigo.
- Então Susana? O que se passa?
- Qué tens de ser forte ouviste?
- Tenho que ser forte porquê? Ai, o que me estão a esconder? Susana, o que aconteceu? Por favor diz-me… - a voz dela tornou-se cada vez mais instável e os olhos começaram a formar uma breve película de água.
- Raquel…
- Diz-me de uma vez! – pediu
- O Pedro faleceu!
(Raquel)
- Não! Não! Não! Não pode! – não podia estar a acontecer…ele não podia ter…ele NÃO PODIA! Era o meu pior pesadelo! As lágrimas já corriam violentamente pela minha cara e deixei de ter forças no corpo. Aterrei no banco que estava atrás de mim quase com o corpo inerte.
- Raquel…Raquel olha para mim! Princesa anda lá…olha para mim! – pediu-me o Rafael e acabei por concede-lo – ele deixou-te isto! – ele deu-me uma carta para a mão e comecei a lê-la desesperadamente em busca de respostas
Querida Raquel,
Se tiveres a ler isto é porque já estou bem longe num lugar belo, quente, onde tudo é possível e impossível. A primeira coisa que vou fazer é dizer um “Olá” ao teu avô e dizer-lhe que criou uma magnífica neta! Espero que ele goste de mim, eu acho que nunca te fiz mal, quer dizer, não me despedi convenientemente de ti. Desculpa. Tinhas-me avisado que a operação poderia correr mal mas não te dei ouvidos, só o simples facto de ter a possibilidade de poder andar normalmente pôs-me cego. Infelizmente não me apercebi que ainda devia ter ficado mais algum tempo perto de ti, ainda tinha tantas coisas para te ensinar.
No momento em que soube que nunca mais poderia continuar a carreira foi exactamente no mesmo dia em que tu apareceste pela primeira vez no ginásio. Apareceste cheia de ambições e sonhos, desafios e demasiados obstáculos para uma menina de apenas oito anos. De certa forma revi-me em ti e foi por isso que me liguei assim tão rapidamente a ti. Mas só agora é que me apercebi que fui um egoísta, exigi de ti aquilo que eu queria ter feito, transformei-te naquilo que era o meu sonho e não o teu. Exigi demasiado do teu corpo para seres perfeita e não entendi o quanto tu já eras perfeita!
Sou eu o CULPADO! A culpa de estares com os joelhos nesse estado foi minha, nunca deveria ter sido tão duro contigo em busca de uma perfeição idiota. Errei novamente, cometi o mesmo erro que cometeram comigo, queria criar uma máquina perfeita e acabei por acabar com um sonho de um ser humano. Tu não merecias tal coisa. Queria tanto ter mais uns dias para te dizer tudo isto ao pé de ti, apoiar-te neste momento doloroso. Deves estar a pensar como é que eu sei de tal coisa certo? Pois bem, inconscientemente sabia que mais cedo ou mais tarde iriam proibir-te de treinar. Mas mesmo assim continuei, mesmo assim continuei a treinar-te à espera que um milagre acontecesse para não acabares como eu. Mas enganei-me…enganei-me! O máximo que te posso pedir é desculpa mas, sem dúvida nenhuma que foste tu que me deste uma segunda oportunidade á minha vida. Foste muito melhor que eu e serás muito melhor do que alguma vez tenha sido.
Raquel, a tua carreira, por muito que pareça agora, não termina já. É só um interregno para a nova fase, a fase aonde me encontraste. A fase de treinador…tenho a certeza que farás muitas crianças felizes!
Não sei se alguma vez te disse mas eu sempre o senti: “És o meu maior orgulho!”
Espera, só mais uma coisa antes que me esqueça. Tem atenção á Susana, ela anda numa pressão gigante e o treinador dela não a ajuda. Nestes momentos de maior pressão acabamos por deixar de comer…não deixes que isso lhe aconteça!
Bem…acho que é agora! Estão a chamar-me para o bloco operatório!
É só um “Até já”!
Pedro
- Quando é o funeral? – perguntei ainda perdida nas palavras da carta…
- É hoje às 15h00!
- Por favor levem-me lá! – era a única coisa que queria naquele momento, vê-lo pela ultima vez!
***
Depois de chegarmos ao cemitério deparei-me com um problema que já não me lembrava que ele existia. Tinha pânico a cemitérios, nunca em toda a minha vida tinha entrado num, nem mesmo no dia em que o meu avô foi enterrado. Era uma luta interior que tentava a todo o custo ultrapassar mas que nunca o conseguira fazer. Peguei no ramo de flores que tinha ao meu lado e ao tentar passar pela porta, não o conseguia fazer. As minhas pernas ficavam pregadas ao chão e não conseguia entrar dentro do cemitério.
- Raquel… - ouvia a Susana
- Eu não consigo! Porquê? Porque tenho este medo absurdo? Porque congelo quando estou prestes a entrar? – A Susana apenas me abraçou e tentou acalmar-me – acho que vou ter que ficar aqui á porta! – disse entre lágrimas
- Eu fico contigo! – respondeu prontamente o Rafael
- Não eu fico sozinha!
Mudei de direcção e fui até a um banco que se encontrava à porta e sentei-me. Tinha falhado novamente tal e qual como tinha feito no funeral do meu avô.
- Raquel… - ouvi de novo o meu nome mas desta vez a voz não podia ser real, quando o vi, nem queria acreditar no que os meus olhos me mostravam.
Desculpem a ausência demorada mas infelizmente tive que estar mais umas semanas no hospital que não estavam previstas por mim
Este capitulo foi escrito no hospital (como puderam notar o meu estado de espírito dentro daquelas quatro paredes era mesmo para matar alguém =( ) e como hoje é que voltei a casa (espero que seja de vez) só tive oportunidade de o postar hoje.
Espero que gostem, e os comentários são muito importantes para mim...
Raquel
Olá minha querida! Não conhecia de facto a tua fan fic mas agora que comecei a ler até gostei da história. O facto de tudo não ser perfeito torna a história muito mais real. Parabéns e continua. Já agora, as melhoras!
ResponderEliminarBeijinhos!*
fantastico...
ResponderEliminarquero mais... agora fiquei super curiosa para ver o proximo...
continua...