"És a última peça do meu puzzle...és a última peça do meu coração....és a última peça para ser feliz"

terça-feira, 12 de julho de 2011

Capitulo 10 - O queimar de uma carreira!


Estava prestes a ter um ataque emocional com tantas sensações que estava a viver. Não sabia se haveria de chorar, sorrir, gritar, rir…mas algo se abateu sobre mim a partir do momento em que vi o Nuno mesmo ao meu lado numa cadeira de rodas. A primeira coisa que pensei foi “é uma miragem, uma alucinação” mas depois vi o sorriso dele tão real e mágico que deixei fugir uma lágrima

- Como…como… - tentei dizer alguma coisa mas a surpresa era tal que nem palavras conseguia encontrar para descrever o que tinha á minha frente, estava perplexa. Tive um impulso de imediato para o abraçar mas a cadeira de rodas dificultou um pouco as coisas – como é que estás aqui?

- Eu até te dizia que tinha vindo com as minha pernas a andar mas devido à cadeira que agora me prende acho que posso dizer que vim sobre rodas! – por incrível que pareça ele conseguiu retirar-me um sorriso tímido

- Mas bem á pouco tempo estavas em coma?! Estive lá contigo! Ou sou eu que já estou a delirar… - aquilo já era informação a mais por um dia só

- Quem me dera que não tivesse sido real!

- O Nuno acordou pouco tempo depois de teres saído… - disse a mãe dele que se fazia acompanhar também por uma enfermeira – ele perguntou-me por ti e eu não tive coragem de lhe mentir, acabei por lhe dizer o que se tinha sucedido. E pronto, como já deves conhecer um pouco o meu filho, ele é de ideias fixas!

- Mas isto é uma loucura….ainda deves estar combalido do coma…é um perigo estares aqui! – a minha voz saiu um pouco emocionada com a situação e por isso bastante trémula – é melhor voltares para o hospital! Aqui, como é obvio, não estás bem!

- Shiu! Não há cá nada disso…eu estou aqui para te apoiar e não para me ir embora! E nem vale a pena discutir! – inquiriu

- Mas Nuno…

- Não há Nuno nem meio Nuno! – ele olhou na direcção da entrada do cemitério e percebeu que a cerimónia ainda não tinha acabado - Afinal porque não estás lá dentro?

- Porque… - olhei para as duas senhoras que estavam ao lado dele e as palavras não me saiam. Não era porque elas não pudessem saber mas ainda não me sentia suficientemente á vontade para falar de tal assunto ao pé de “quase estranhos”…ele apercebeu-se do meu constrangimento e por isso pediu às duas senhoras para se afastarem do local. Ele chegou-se até mim e agarrou-me na minha mão direita

- Anda cá! – ele puxou-me um pouco para junto dele o que me fez sentar meia no chão meia na cadeira de rodas com a minha cabeça no tronco dele. Estava a precisar tanto de um abraço, de algo que pudesse reconfortar aquela dor que estava a sentir…a dor de ter perdido uma das pessoas mais importantes da minha vida e acima de tudo, por ter descoberto que a minha carreira fora terminada por erros da pessoa em quem mais confiava o meu futuro – Isso vai passar meu anjo! Tenho a certeza que sim… - levantei a minha cabeça e pus-me de joelhos em frente dele, ele limpou-me as lágrimas que escorriam com um jeito incrível – estás preparada para me explicares o que se passou?

- Não…desculpa!

- Como é óbvio não precisas de pedir desculpas…estou aqui para quê? Para fazer de espantalho ou é porque gosto de ti? Acho que nem preciso de responder pois não?

- Não! Obrigada, a sério! É algo demasiado complexo, doloroso para ser digerido de uma vez só! Apenas necessito de algum tempo para mim, para me habituar a uma ausência! – antes de que chorasse mais mudei rapidamente de assunto – Então como é que te sentes depois do coma? Como se costuma dizer: estás pronto para outra?

- Sinto-me melhor mas ainda meio anestesiado. Parece que morri e voltei a ressuscitar, sente-se um peso enorme no corpo. Lembro-me de certas coisas quando estava no coma…nada muito nítido mas apenas sensações…cada vez que lá estavas eu conseguia sentir-te de uma forma única! – o facto de saber que ele me sentia mesmo quando estava em coma deixou-me feliz. Queria mesmo muito que ele soubesse que tinha ficado com ele, ao lado dele durante aquele tempo penoso.

- A sério?

- Não sei explicar muito bem o que sentia mas que era real, isso tinha a certeza. Era uma espécie de energia entendes? Algo que consegue percorrer o nosso corpo a uma velocidade extraordinária e que nos faz ter momentos de quase “vida” entendes?

- Acho que entendo um pouco…quer dizer que notavas a minha presença sempre que eu aparecia certo?

- Não era assim tão simples como isso! Era mais quando me tocavas…sentia qualquer coisa dentro de mim invulgar…algo inexplicável!

- Era a minha vontade de te voltar a ter ao meu lado, de voltar a ver-te a sorrir, de voltar a falar contigo!

- Ficaste preocupada comigo?

- Ó meu grandessíssimo parvo! É mais que óbvio que estava preocupada contigo, és meu amigo e criamos logo uma empatia fantástica desde que nos conhecemos. Não te queria perder de maneira nenhuma!

- E o David? Estavas com ele nesse dia não era? – durante aquele período de tempo tinha conseguido não pensar nele de forma tão assustadoramente regular. Por momentos tinha conseguido desligar a minha cabeça dele, mas foi apenas momentaneamente. Ele estava lá de pedra e cal na minha cabeça e não só.

- Esse é outro assunto que eu preferia não falar…pode ser?

- Claro, tu é que sabes!  

Entretanto começam a sair pessoas do cemitério com o evoluir da nossa conversa. Vislumbrei alguns atletas que tinham sido treinados por ele, alguns membros do ginásio que representava, e outras tantas personalidades desportiva para além de, claro, toda a sua família e amigos. A Susana e o Rafael foram dos últimos a sair e vinham acompanhados por alguns membros da família do Pedro. A mãe dele saiu do cemitério bastante transtornada e quando me viu, veio ter comigo juntamente com a Susana e o Rafael.

- Olá Raquel! – disse-me a mãe do Pedro visivelmente transtornada

- Olá… - disse de forma trémula e quase em surdina…vi nos olhos dela as lágrimas a formarem-se e num ápice começaram a escorrer violentamente pela face

- O meu filho…o meu filho… - dizia entre soluços provocados pelo choro – o meu filho gostava muito de si….a menina era o maior orgulho dele!

- Eu sei…agora sei!

- Desculpe o meu filho…ele não lhe queria causar dor. O Pedro chegava a casa todos os dias em baixo, dizendo que não suportava ver-te a treinar daquela maneira com dores. Mas ele não conseguia dizer que não…ele adorava a menina! Ele via-se em si! Ele sofreu muito com as lesões mas nunca desistiu, só o fez quando percebeu que estava a um pequeno passo da cadeira de rodas. Lembro-me como se fosse hoje. Quando a menina apareceu pela primeira vez no ginásio, ele chegou a casa super sorridente, nem parecia que tinha acabado com a carreira. Deu uma segunda vida ao meu filho, por isso só tenho que lhe agradecer por isso.

- Não tem que agradecer! Ele também completou a minha vida mesmo não sabendo. E eu tenho a certeza que neste momento ele já sabe.

- Sim! Aonde quer que esteja, ele sabe!

Ela foi-se embora e ficamos apenas nós os quatro. O Nuno teve que voltar para o hospital pois já estava há muito tempo na rua. Precisava de estar um pouco sozinha por isso despedi-me dele e fui até ao ginásio. Estava vazio. Ninguém treinou naquele dia. Entrei no escritório dele e vi uma foto minha e dele com medalhas de ouro. Sorri. Tinham sido momentos fantásticos mesmo com muita dor. Sentei-me na cadeira e comecei a escrever:

Querido treinador Pedro,

Li a tua carta, li a tua carta vezes a fio, percorri todas as letras, frases, parágrafos que escreveste com os meus olhos. Senti na pele dos meus dedos partes humedecidas na carta o que supus serem lágrimas. Nunca te tinha visto chorar, não tive esse privilégio porque partiste na altura errada, não devias ter saído da minha vida ainda com tantas coisas para te dizer.

Quando entrei naquele ginásio com oito anos e te vi, daquele jeito, em baixo, partiu-me o coração. Quis-te mostrar que podíamos ultrapassar tudo se tivéssemos força de vontade, empenho, sacrifício. Queria tanto ter podido ver-te a actuar, nem que fosse uma única vez, mas tu nunca o fizeste. De certa forma compreendia, mas continuava lutando para te impressionar e ficares comigo como treinador. Vou-te confessar uma coisa que nunca te tinha dito, naqueles primeiros treinos que tu me deste, mandavas-me treinar em casa aqueles exercícios estúpidos (era o que pensava na altura) de flexibilidade. Pois, eu não os fazia. Preferia treinar no meu quarto exercícios de equilíbrio. Sabes porquê? Porque te queria impressionar, porque te tinha como um ídolo para mim, tu eras a meta para alcançar. Trabalhava todos os dias para poder um dia ser como tu.

Ao longos dos anos tornaste-me uma atleta segura e eficaz. Mas tornaste-te cada vez mais frio comigo, exigias cada vez mais de mim. Quando dava o meu melhor tu continuavas insatisfeito. Achavas que não me estava a esforçar o suficiente e isso magoava-me, e muito! Mas nunca desisti de ti. Continuei a ir todos os dias ao ginásio e trabalhava o dobro, treinava até não ter pele nos dedos dos pés e das mãos. Olhava para ti e tu continuavas insatisfeito. Aí foi o auge da minha forma. A partir daí começou uma espiral de lesões infernais que nunca mais paravam. Mas aí surpreendeste-me, continuaste comigo e a apostar em mim, deste-me um voto de confiança que mais ninguém dava. Preparavas treinos especiais para mim e evidenciaste as minhas melhores qualidades. Voltei a encontrar o meu ídolo novamente que tinha desaparecido de ti. Fizeste-me acreditar que podia ultrapassar aquele obstáculo, mas sempre que o ultrapassava aparecia um ainda maior. A minha vontade era desistir mas nunca me deixaste faze-lo. Até que chegou o fim. Agora que penso nisso, não viste o meu fim como eu não vi o teu!

Queres saber a minha reacção em relação á tua carta? Pois bem. Não faço a ideia do que sinta…não sei se te odeio ou se ainda te considero o meu ídolo de infância. Fizeste-me acreditar durante aquele tempo das lesões que podia supera-las mesmo sabendo qual seria o meu fim. Quiseste ver-me sofrer como tinhas sofrido. Tu melhor que ninguém, sabias das dores que me assombravam o pé e o joelho mas mesmo assim continuavas a insistir comigo. E eu, parva, achava que sabias o que era melhor para mim. Arruinaste a minha vida quando a podias ter salvo no momento em que soubeste do meu problema no joelho. Os tratamentos eram demasiado dolorosos e longos mas mesmo assim estava sempre sorridente para ti, para te ver feliz. Que parva!

Mas depois vem as lembranças de criança que me impossibilitam de te odiar. Achas isto normal? De certa forma compreendo. Quiseste dar uma segunda oportunidade da tua carreira em mim. Fizeste de mim o que não conseguiste ter…e por isso não te censuro. Por muito que sofra e que tenha sofrido, foste tu que me deste a primeira alegria naquele dia em que me escolheste. Esses momentos não se esquecem…Fui muito feliz ao teu lado e não te trocava por mais ninguém….E acredita, não fui melhor que tu, eu apenas continuei o teu trabalho…acho que nos completamos. A minha carreira foi a continuação da tua e tenho muito orgulho nisso!

Obrigada por me teres ensinado tudo o que haveria para ensinar! Obrigada por me teres tornado numa pessoa melhor!

Descansa em paz!

Ao meu lado encontrava-se um caixote do lixo. Peguei num isqueiro que havia numa gaveta e peguei fogo ao papel e deitei-o para o lixo. Precisava urgentemente de começar um ciclo novo na vida!


Espero que gostem =)
Raquel


segunda-feira, 11 de julho de 2011

Comunicado

Olá =)

Queria desde já pedir desculpas por não ter postado mas não consegui devido a uma lesão que contraí enquanto treinava. Tive que ficar em repouso absoluto e ainda tive que ir para fora do país para ser devidamente tratada.
Penso que desta vez estou a 100% (espero eu), pelo menos garantiram-me que sim!
Por isso estou super feliz e motivada para continuar a escrever!
Devo postar um novo capitulo daqui a dois dias!

Obrigada!

Raquel 

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Ola =)

Queria divulgar uma nova fic criada por uma amiga minha

http://quandoomundoemaispequenoqueosonho.blogspot.com/

Visitem e divulguem

Agora falando da minha...vou tentar postar o mais cedo possível mas a minha lesão ainda não está 100% curada e como não me apetece voltar para o hospital, vou fazer o que o médico me mandou: estar quietinha e deitada!
Por isso ainda não sei ao certo quando volto a postar!Desculpem...

beijinhos
Raquel

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Capitulo 9 - O outro lado da vida


Despedi-me do Nuno apenas com um beijo e saí do hospital. Iria seguir o conselho da mãe do Nuno e ir para casa descansar um pouco e regressar com mais energias. Não consegui pensar em nada durante todo o caminho até casa. Quando lá cheguei tinha o Rafa e a Susana á minha espera. Quando me viram vieram de imediato ter comigo e abraçaram-me

- Ainda nem acredito que estás a passar por isto tudo sozinha meu amor!

- Susana, Rafa! Vocês são malucos…o que estão aqui a fazer meus doidinhos!

- Em primeiro… - começou a declamar o Rafael mas eu interrompi-o

- Não quero saber…abracem-me! – Não queria ouvir mais nada! Apenas sentir o abraço deles e mais nada, para além de que tinha um mau pressentimento! Acabei por ir para casa depois e descansei como já não fazia a algum tempo.


(Susana)

Desde que soube o que aconteceu ao Nuno e principalmente á Raquel nunca mais consegui tirar aquele assunto da minha cabeça tornando os meus treinos mais que péssimos. Passei todo o meu treino matinal a ouvir queixas do meu treinador e por causa do meu mau desempenho ainda tive que fazer mais vinte minutos de treino de ginásio. O Rafael acabou por passar pelo meu ginásio para me dar boleia para a faculdade pois já estava atrasada para a primeira hora da manhã.

- Rsrsrsrs. Que treino de merda! Nem um mortal consegui fazer em condições!

- Que exagero Susana!

- Que exagero nada! Mais valia ter ficado na cama pois neste treino não aprendi nada e ainda fico pior!

- Tenho a certeza que se for perguntar ao teu treinador como correu, ele não vai dizer assim tão mal do teu treino!

- Ai vai vai! Mandou-me fazer mais vinte minutos de ginásio! A sério…não sei se estou preparada para Outubro! – era já em Outubro que tinha o campeonato do Mundo e não me sentia nada preparada para tal

- Susana Maria! Não vamos começar já com as inseguranças ridículas! Tu és excelente e vais fazer um bom campeonato! Vamos lá estar todos para te apoiar sim?

- É muito fácil falar mas é mais difícil agir! Além disso acho que não estou em forma…parece-me que tenho uns quilinhos a mais não achas? – sentia-me ultimamente cada vez mais pesada o que me dificultava muito os exercícios mas sempre que tentava fazer “dieta” ou não comer parecia que engordava mais!

- Estou a ouvir mal certo? Eu não te ouvi dizer que tens quilos a mais pois não?

- Anda lá Rafa! Estou a falar a sério…tenho ou não?

- Susana…eu só não te olho nos olhos porque estou a conduzir mas vê se me ouves em condições! Se tu emagreces seja o que for, ficas reduzida a nada! Estás óptima como estás, além disso acho que já começaste a perder massa muscular com essa tua paranóia de estares gorda!

- Não perdi nada!

- Olha eu não vou discutir isso contigo porque não vale a pena! Mas se continuares com essa conversa ridícula levo-te a um hospital para te observarem já que o teu treinador não vê isso.

- Hospital?

- Sim, hospital! Aquele sitio para onde se levam as pessoas quando estão doentes!

- Mas eu não estou doente! Só estou gorda!

Ele faz uma paragem brusca na auto-estrada e com uma manobra rápida e perigosa para o carro na berma da estrada.

- Estás louco? Queres-me matar é isso?

- E o que estás a fazer a ti própria não é matar-te aos poucos?

- Não sei do que estás a falar! – sabia perfeitamente do que ele estava a falar mas não podia dar-lhe razão. O que estava a fazer era para um bem maior!

- Ai não sabes?

- Se eu estou a dizer que não é porque é não!

- Então… - ele foi interrompido pelo pai da Raquel que por acaso estava com cara de poucos amigos. O Rafa desceu rapidamente o vidro do seu lado para podermos falar

- Meninos o que vem a ser isto? Rafael não sabes que não podes parar aqui amenos que estejas a pôr em perigo os outros condutores? – falou com uma voz de autoridade como lhe competia

- Eu sei! Desculpe…mas uma coisa tirou-me do sério e tive mesmo que parar! É a última vez que paro sem uma razão suficientemente válida

- Espero bem que sim meu menino! Vá vão lá que já devem estar atrasados para a faculdade!

- Sim estamos…

- Espere! Como está a Raquel? Ele vem hoje ás aulas? – perguntei

- Não! Ela já deve estar novamente no hospital à espera que o Nuno acorde! Tentei demove-la mas sabem como a Raquel é teimosa…ela só volta a sair de lá com ele já acordado!

- Esteja descansado que vamos conseguir convencê-la a sair de lá! – tranquilizou-o o Rafa  

- Ainda bem! Vá…tenham cuidado! – ele acabou por ir embora e vimo-lo a entrar para o carro da GNR abandonando o local. Depois fomos nós pois já estávamos atrasados e não voltamos a falar no assunto!

***

O meu telemóvel começa a tocar na minha aula e fico surpreendida quando vejo no visor o nome do meu treinador. Saio rapidamente da sala e atendo a chamada

- Sim, treinador! O que se passa? – perguntei ansiosa

- A Raquel?

- A Raquel ainda está no hospital ao lado do rapaz que lhe falei ontem, aquele que está em coma, lembra-se?

- Sim sim, lembro-me perfeitamente! Tens de lhe dar uma noticia a ela…

- Uma noticia…qual noticia?

- A operação que o treinador dela foi fazer correu mal e acabou por falecer á dois dias! Neste momento já está em Portugal e o funeral vai ser hoje á tarde!

- O quê?? Não…não! Como é que isso aconteceu…. – fiquei em choque com a noticia, não porque o conhecia assim tão bem mas aquele treinador era mais do que um simples treinador para a Raquel. Por vezes era um segundo “pai”…

- A operação ao joelho era complicada…o organismo dele não reagiu bem e pronto…acabou por morrer! Ele deixou uma carta para a Raquel…escreveu-a antes de ser operado! – desliguei o telemóvel sem dizer mais nada e corri para o pavilhão aonde se encontrava o Rafael. Ele estava a ter uma aula de basquetebol mas interrompi-a na mesma. Quando me viu entrar pelo pavilhão veio logo ter comigo

- O que estás aqui a fazer?

- O Pedro morreu! O Pedro morreu, Rafael! Ele morreu…

- Estás a brincar não estás? – abanei com a cabeça negativamente – A Raquel já sabe? – voltei a repetir o gesto anteriormente feito – Vamos ter de lhe contar….

- Ele deixou-lhe uma carta! Vou busca-la agora e vou logo directa para o hospital ter com ela.

- E o funeral é quando?

- Hoje! Vens comigo?

- Claro vamos lá!

***

Depois de termos ido buscar a carta ao meu treinador fomos em direcção ao hospital. Ao entrarmos deparamos logo com a Raquel sentada num banco na sala de espera ao lado do pai do Nuno. Entramos lentamente e ao me aproximar dela não consegui conter as lágrimas. Ela deu logo pela nossa entrada e ao ver-me naquele estado veio ter comigo.

- Então Susana? O que se passa?

- Qué tens de ser forte ouviste?

- Tenho que ser forte porquê? Ai, o que me estão a esconder? Susana, o que aconteceu? Por favor diz-me… - a voz dela tornou-se cada vez mais instável e os olhos começaram a formar uma breve película de água.

- Raquel…

- Diz-me de uma vez! – pediu

- O Pedro faleceu!

(Raquel)

- Não! Não! Não! Não pode! – não podia estar a acontecer…ele não podia ter…ele NÃO PODIA! Era o meu pior pesadelo! As lágrimas já corriam violentamente pela minha cara e deixei de ter forças no corpo. Aterrei no banco que estava atrás de mim quase com o corpo inerte.

- Raquel…Raquel olha para mim! Princesa anda lá…olha para mim! – pediu-me o Rafael e acabei por concede-lo – ele deixou-te isto! – ele deu-me uma carta para a mão e comecei a lê-la desesperadamente em busca de respostas



Querida Raquel,

Se tiveres a ler isto é porque já estou bem longe num lugar belo, quente, onde tudo é possível e impossível. A primeira coisa que vou fazer é dizer um “Olá” ao teu avô e dizer-lhe que criou uma magnífica neta! Espero que ele goste de mim, eu acho que nunca te fiz mal, quer dizer, não me despedi convenientemente de ti. Desculpa. Tinhas-me avisado que a operação poderia correr mal mas não te dei ouvidos, só o simples facto de ter a possibilidade de poder andar normalmente pôs-me cego. Infelizmente não me apercebi que ainda devia ter ficado mais algum tempo perto de ti, ainda tinha tantas coisas para te ensinar.

No momento em que soube que nunca mais poderia continuar a carreira foi exactamente no mesmo dia em que tu apareceste pela primeira vez no ginásio. Apareceste cheia de ambições e sonhos, desafios e demasiados obstáculos para uma menina de apenas oito anos. De certa forma revi-me em ti e foi por isso que me liguei assim tão rapidamente a ti. Mas só agora é que me apercebi que fui um egoísta, exigi de ti aquilo que eu queria ter feito, transformei-te naquilo que era o meu sonho e não o teu. Exigi demasiado do teu corpo para seres perfeita e não entendi o quanto tu já eras perfeita!

Sou eu o CULPADO! A culpa de estares com os joelhos nesse estado foi minha, nunca deveria ter sido tão duro contigo em busca de uma perfeição idiota. Errei novamente, cometi o mesmo erro que cometeram comigo, queria criar uma máquina perfeita e acabei por acabar com um sonho de um ser humano. Tu não merecias tal coisa. Queria tanto ter mais uns dias para te dizer tudo isto ao pé de ti, apoiar-te neste momento doloroso. Deves estar a pensar como é que eu sei de tal coisa certo? Pois bem, inconscientemente sabia que mais cedo ou mais tarde iriam proibir-te de treinar. Mas mesmo assim continuei, mesmo assim continuei a treinar-te à espera que um milagre acontecesse para não acabares como eu. Mas enganei-me…enganei-me! O máximo que te posso pedir é desculpa mas, sem dúvida nenhuma que foste tu que me deste uma segunda oportunidade á minha vida. Foste muito melhor que eu e serás muito melhor do que alguma vez tenha sido.
Raquel, a tua carreira, por muito que pareça agora, não termina já. É só um interregno para a nova fase, a fase aonde me encontraste. A fase de treinador…tenho a certeza que farás muitas crianças felizes!

Não sei se alguma vez te disse mas eu sempre o senti: “És o meu maior orgulho!”

Espera, só mais uma coisa antes que me esqueça. Tem atenção á Susana, ela anda numa pressão gigante e o treinador dela não a ajuda. Nestes momentos de maior pressão acabamos por deixar de comer…não deixes que isso lhe aconteça!

Bem…acho que é agora! Estão a chamar-me para o bloco operatório!

É só um “Até já”!

Pedro      

- Quando é o funeral? – perguntei ainda perdida nas palavras da carta…

- É hoje às 15h00!

- Por favor levem-me lá! – era a única coisa que queria naquele momento, vê-lo pela ultima vez!

***

Depois de chegarmos ao cemitério deparei-me com um problema que já não me lembrava que ele existia. Tinha pânico a cemitérios, nunca em toda a minha vida tinha entrado num, nem mesmo no dia em que o meu avô foi enterrado. Era uma luta interior que tentava a todo o custo ultrapassar mas que nunca o conseguira fazer. Peguei no ramo de flores que tinha ao meu lado e ao tentar passar pela porta, não o conseguia fazer. As minhas pernas ficavam pregadas ao chão e não conseguia entrar dentro do cemitério.

- Raquel… - ouvia a Susana

- Eu não consigo! Porquê? Porque tenho este medo absurdo? Porque congelo quando estou prestes a entrar? – A Susana apenas me abraçou e tentou acalmar-me – acho que vou ter que ficar aqui á porta! – disse entre lágrimas

- Eu fico contigo! – respondeu prontamente o Rafael

- Não eu fico sozinha!

Mudei de direcção e fui até a um banco que se encontrava à porta e sentei-me. Tinha falhado novamente tal e qual como tinha feito no funeral do meu avô.

- Raquel… - ouvi de novo o meu nome mas desta vez a voz não podia ser real, quando o vi, nem queria acreditar no que os meus olhos me mostravam.


Desculpem a ausência demorada mas infelizmente tive que estar mais umas semanas no hospital que não estavam previstas por mim
Este capitulo foi escrito no hospital (como puderam notar o meu estado de espírito dentro daquelas quatro paredes era mesmo para matar alguém =( ) e como hoje é que voltei a casa (espero que seja de vez) só tive oportunidade de o postar hoje. 
Espero que gostem, e os comentários são muito importantes para mim...
Raquel 
   

terça-feira, 31 de maio de 2011

Capitulo 8 - A decisão

- Por favor! Vai-te embora….não piores as coisas…

- ‘Cê tem a certeza?

- Não! – virei-me de costas pois já não o conseguia encarar…sentia uma dor demasiado grande. Sinto as mãos dele a pousarem nos meus ombros e uma descarga de adrenalina invade o meu corpo – David…

- Eu estou aqui sempre…

- Mas eu não quero…não quero! Por favor….afasta-te de mim! – pedi choramingando, sentia o meu coração num sufoco constante e quase sem oxigénio para conseguir bombear sangue. A fraqueza do meu corpo estava cada vez mais visível e as minhas pernas estão cada vez mais frágeis.

- É isso que quer?

- Absoluta! – disse sem pensar duas vezes. Ele foi retirando as mãos sob os meus ombros e ouvi-o afastar-se de mim aos poucos. Aquilo estava a quebrar o meu coração aos poucos e por mais que quisesse tentar perceber o que sentia era impossível. Olhei para trás na esperança de encontrar o corpo dele parado a olhar para mim mas já tinha ido embora.

Respirei fundo e voltei para dentro do hospital com o intuito de voltar ao quarto do Nuno para o ver. Quando cheguei ao quarto dele abri a porta e entrei sem fazer barulho como se ele tivesse apenas a dormir. Ao vê-lo assim, daquela maneira, deitado com imensos fios ligados ao corpo e com um barulho ensurdecedor de uma máquina fazia-me sentir triste, desolada. Queria a todo o custo voltar a falar com ele, queria voltar a ouvir a voz dele, queria pedir-lhe desculpa pelo que tinha dito. Queria não me sentir culpada por aquilo que aconteceu…

Cheguei-me para junto da cama e sentei-me num cadeirão que lá se encontrava. Puxei as minhas pernas para junto do meu peito e tentei formar uma “concha” com o meu corpo tentando arranjar energias para me conseguir manter acordada. Fechei os olhos para descansar um pouco…

- Raquel?! – senti alguém a mexer-me nos cabelos

- Nuno? – disse ao abrir os olhos, ainda nem estava a acreditar que estava a vê-lo sentado na cama – Nuno? Ai não acredito! – saltei do cadeirão num impulso e abracei-o mas nesse momento sinto uma dor aguda no pé o que me faz soltar um pequeno gemido

- O que se passa? Estás bem? – perguntou-me preocupado e eu sorri

- Tu acabaste de sair de coma e perguntas-me se estou bem…eu é que devia perguntar e não tu… - disse sorrindo tentando controlar uma dor que sentia mas ao mesmo tempo incrivelmente feliz pelo Nuno – eu vou chamar o médico….

- Não é preciso…eu já aqui estou – ao virar-me estava o médico a entrar dentro da sala – pelo que vejo Nuno já estás a recuperar muito bem…acho que posso dar-te a alta muito rapidamente

- Já?! Tem a certeza doutor?? Não é demasiado cedo… - perguntei preocupada por demais

- Raquel…eu estou bem… - disse o Nuno com um tom de voz sereno e tranquilizador

- Mas… - mesmo assim não estava convencida

- Menina Raquel quem é o médico neste quarto?

- É o senhor mas mesmo assim não fico cem por cento segura… - já estava ao lado do Nuno e instintivamente agarrei-lhe a mão com toda a força que tinha naquele momento (que por acaso era pouca)

- Fica calma Qué! – deu-me um beijo na teste que me fez sorrir de uma forma estranha – Eu estou bem…prometo!

- Eu só não quero que piores…

O médico pediu-me para sair para lhe poder fazer uns últimos exames e averiguar se ele se encontrava mesmo bem. Passado alguns minutos o médico sai e diz que já posso novamente entrar e é isso que faço. Para meu espanto, vejo o Nuno a tirar os tubos que estavam colados ao corpo e a bata verde que tinha vestido.

- O que estás a fazer? Estás louco?

- Não! – ele pegou na minha mão e tirou-me daquele quarto puxando-me em direcção á saída do hospital. Ninguém notou pela nossa presença ao passar-mos pela sala de espera, algo que me deixou bastante perturbada. Já havia um táxi há nossa espera e ele pediu-me para entrar. O Nuno indicou o local para onde queria ir mas eu nem sequer consegui ouvir e as tentativas de descobrir foram em vão. Mas com o avançar da estrada rapidamente descobri o destino.

Ele levou-me para o local onde não queria entrar nas próximas eternidades. Ele abriu a porta do ginásio e aquele cheiro tão característico fez-me voltar a relembrar das minhas performances. Ele puxou-me para dentro e tirou de dentro do bolso dele uma câmara de filmar o que me pôs a pensar.   

- Mas o queres fazer com isso? – perguntei curiosa sem nenhuma ideia na cabeça

- Para mostrar a todo o mundo o teu último programa e como merecias ter tido outra oportunidade na vida.

- Nuno… - olhei para o meu pé e ele já não me dói-a tanto – eu não quero que a minha ultima actuação seja assim tão péssima…

- Qué isso é impossível…tu nunca poderás ser péssima com o talento que tens! Quero muito voltar a ver-te brilhar como eu já te vi fazer…tu és uma rapariga com um talento fora do normal e é injusto não seres reconhecida dessa forma!

- Não é injusto Nuno…eu apenas não tive as oportunidades para o fazer…

- Mas eu só quero ver-te uma última vez Raquel…a última!

- Eu só não quero que essa imagem que tens de mim se desvaneça ao veres-me insegura.  

- Isso nunca vai acontecer meu anjo…confia em mim, tu vais voar, tenho a certeza!

Apenas sorri, dirigi-me para a caixa aonde estava guardado o magnésio e tirei uma pedra dele. Esfreguei nas minhas mãos, nos pés e um pouco nos joelhos e voltei-me para a trave. Pela primeira vez na minha estava em pânico, tinha medo de subir para cima daquele que agora me parecia um monstro. Sem dar por isso já estava sozinha no ginásio e sem sinais do Nuno, o meu coração começou a bombear sangue cada vez com mais intensidade. Sentia-me cada vez mais frágil, até que o “monstro” ganha pernas de uma forma inacreditável e vem na minha direcção. O pânico da minha cara instala-se e dirigi-me rapidamente para a saída mas a porta estava trancada. Para meu desespero aquilo continuava a perseguir-me e uma dor enorme voltou. Não me conseguia mexer, estava pregada ao chão sem me conseguir soltar daquele pesadelo. Tento a todo o custo levantar-me mas as minhas pernas estavam desertas de energia. Já sem forças algumas no meu corpo desligo do mundo.

***

 - Raquel? – ouvi alguém chamar-me. Abri os olhos devagarinho e a primeira imagem que me apareceu foi a da mãe do Nuno

- Onde estou? – ainda estava meia confusa com tudo o que tinha acabado de acontecer

- Oh minha filha…deves estar muito cansada! Ainda estás no quarto do Nuno…como vi que demoraste a sair vim ver como estavas! – ao mesmo tempo que me ajudava a endireitar-me no cadeirão.

- Desculpe…adormeci e nem dei conta…

- Não tens de pedir desculpa… - levantei-me e vi que o Nuno ainda continuava em coma…afinal não tinha passado tudo de um pesadelo criado na minha cabeça. Por um lado fiquei contente pois tinha saído daquele mundo terrível mas por outro lado estava triste pois o Nuno não tinha despertado – já pensaste em ir para casa dormir? Fazia-te bem…este ambiente não te faz nada bem…

- Não…eu quero continuar aqui! Não quero sair de junto dele…

- Tens a certeza? Precisas mesmo de descansar...já viste bem como tens a cara?

- Não se preocupe…

- Raquel ele não vai acordar mais depressa por estares aqui ao pé dele… - disse-me serenamente a mãe dele, o que me fez chorar

- Desculpe…

Desculpem a  demora mas a minha lesão lesão tirou qualquer tempo extra que tivesse;
Queria agradecer a todos os que lêem a minha história...Obrigado a todos *-*
Este capitulo têm um agradecimento especial, é inteiramente para  a  Carla;
Obrigado por me teres aturado no hospital e prometo que farei os possíveis e os impossíveis para estar
o mais rapidamente na estrada ...Adoro-te! =D