Estava prestes a ter um ataque emocional com tantas sensações que estava a viver. Não sabia se haveria de chorar, sorrir, gritar, rir…mas algo se abateu sobre mim a partir do momento em que vi o Nuno mesmo ao meu lado numa cadeira de rodas. A primeira coisa que pensei foi “é uma miragem, uma alucinação” mas depois vi o sorriso dele tão real e mágico que deixei fugir uma lágrima
- Como…como… - tentei dizer alguma coisa mas a surpresa era tal que nem palavras conseguia encontrar para descrever o que tinha á minha frente, estava perplexa. Tive um impulso de imediato para o abraçar mas a cadeira de rodas dificultou um pouco as coisas – como é que estás aqui?
- Eu até te dizia que tinha vindo com as minha pernas a andar mas devido à cadeira que agora me prende acho que posso dizer que vim sobre rodas! – por incrível que pareça ele conseguiu retirar-me um sorriso tímido
- Mas bem á pouco tempo estavas em coma?! Estive lá contigo! Ou sou eu que já estou a delirar… - aquilo já era informação a mais por um dia só
- Quem me dera que não tivesse sido real!
- O Nuno acordou pouco tempo depois de teres saído… - disse a mãe dele que se fazia acompanhar também por uma enfermeira – ele perguntou-me por ti e eu não tive coragem de lhe mentir, acabei por lhe dizer o que se tinha sucedido. E pronto, como já deves conhecer um pouco o meu filho, ele é de ideias fixas!
- Mas isto é uma loucura….ainda deves estar combalido do coma…é um perigo estares aqui! – a minha voz saiu um pouco emocionada com a situação e por isso bastante trémula – é melhor voltares para o hospital! Aqui, como é obvio, não estás bem!
- Shiu! Não há cá nada disso…eu estou aqui para te apoiar e não para me ir embora! E nem vale a pena discutir! – inquiriu
- Mas Nuno…
- Não há Nuno nem meio Nuno! – ele olhou na direcção da entrada do cemitério e percebeu que a cerimónia ainda não tinha acabado - Afinal porque não estás lá dentro?
- Porque… - olhei para as duas senhoras que estavam ao lado dele e as palavras não me saiam. Não era porque elas não pudessem saber mas ainda não me sentia suficientemente á vontade para falar de tal assunto ao pé de “quase estranhos”…ele apercebeu-se do meu constrangimento e por isso pediu às duas senhoras para se afastarem do local. Ele chegou-se até mim e agarrou-me na minha mão direita
- Anda cá! – ele puxou-me um pouco para junto dele o que me fez sentar meia no chão meia na cadeira de rodas com a minha cabeça no tronco dele. Estava a precisar tanto de um abraço, de algo que pudesse reconfortar aquela dor que estava a sentir…a dor de ter perdido uma das pessoas mais importantes da minha vida e acima de tudo, por ter descoberto que a minha carreira fora terminada por erros da pessoa em quem mais confiava o meu futuro – Isso vai passar meu anjo! Tenho a certeza que sim… - levantei a minha cabeça e pus-me de joelhos em frente dele, ele limpou-me as lágrimas que escorriam com um jeito incrível – estás preparada para me explicares o que se passou?
- Não…desculpa!
- Como é óbvio não precisas de pedir desculpas…estou aqui para quê? Para fazer de espantalho ou é porque gosto de ti? Acho que nem preciso de responder pois não?
- Não! Obrigada, a sério! É algo demasiado complexo, doloroso para ser digerido de uma vez só! Apenas necessito de algum tempo para mim, para me habituar a uma ausência! – antes de que chorasse mais mudei rapidamente de assunto – Então como é que te sentes depois do coma? Como se costuma dizer: estás pronto para outra?
- Sinto-me melhor mas ainda meio anestesiado. Parece que morri e voltei a ressuscitar, sente-se um peso enorme no corpo. Lembro-me de certas coisas quando estava no coma…nada muito nítido mas apenas sensações…cada vez que lá estavas eu conseguia sentir-te de uma forma única! – o facto de saber que ele me sentia mesmo quando estava em coma deixou-me feliz. Queria mesmo muito que ele soubesse que tinha ficado com ele, ao lado dele durante aquele tempo penoso.
- A sério?
- Não sei explicar muito bem o que sentia mas que era real, isso tinha a certeza. Era uma espécie de energia entendes? Algo que consegue percorrer o nosso corpo a uma velocidade extraordinária e que nos faz ter momentos de quase “vida” entendes?
- Acho que entendo um pouco…quer dizer que notavas a minha presença sempre que eu aparecia certo?
- Não era assim tão simples como isso! Era mais quando me tocavas…sentia qualquer coisa dentro de mim invulgar…algo inexplicável!
- Era a minha vontade de te voltar a ter ao meu lado, de voltar a ver-te a sorrir, de voltar a falar contigo!
- Ficaste preocupada comigo?
- Ó meu grandessíssimo parvo! É mais que óbvio que estava preocupada contigo, és meu amigo e criamos logo uma empatia fantástica desde que nos conhecemos. Não te queria perder de maneira nenhuma!
- E o David? Estavas com ele nesse dia não era? – durante aquele período de tempo tinha conseguido não pensar nele de forma tão assustadoramente regular. Por momentos tinha conseguido desligar a minha cabeça dele, mas foi apenas momentaneamente. Ele estava lá de pedra e cal na minha cabeça e não só.
- Esse é outro assunto que eu preferia não falar…pode ser?
- Claro, tu é que sabes!
Entretanto começam a sair pessoas do cemitério com o evoluir da nossa conversa. Vislumbrei alguns atletas que tinham sido treinados por ele, alguns membros do ginásio que representava, e outras tantas personalidades desportiva para além de, claro, toda a sua família e amigos. A Susana e o Rafael foram dos últimos a sair e vinham acompanhados por alguns membros da família do Pedro. A mãe dele saiu do cemitério bastante transtornada e quando me viu, veio ter comigo juntamente com a Susana e o Rafael.
- Olá Raquel! – disse-me a mãe do Pedro visivelmente transtornada
- Olá… - disse de forma trémula e quase em surdina…vi nos olhos dela as lágrimas a formarem-se e num ápice começaram a escorrer violentamente pela face
- O meu filho…o meu filho… - dizia entre soluços provocados pelo choro – o meu filho gostava muito de si….a menina era o maior orgulho dele!
- Eu sei…agora sei!
- Desculpe o meu filho…ele não lhe queria causar dor. O Pedro chegava a casa todos os dias em baixo, dizendo que não suportava ver-te a treinar daquela maneira com dores. Mas ele não conseguia dizer que não…ele adorava a menina! Ele via-se em si! Ele sofreu muito com as lesões mas nunca desistiu, só o fez quando percebeu que estava a um pequeno passo da cadeira de rodas. Lembro-me como se fosse hoje. Quando a menina apareceu pela primeira vez no ginásio, ele chegou a casa super sorridente, nem parecia que tinha acabado com a carreira. Deu uma segunda vida ao meu filho, por isso só tenho que lhe agradecer por isso.
- Não tem que agradecer! Ele também completou a minha vida mesmo não sabendo. E eu tenho a certeza que neste momento ele já sabe.
- Sim! Aonde quer que esteja, ele sabe!
Ela foi-se embora e ficamos apenas nós os quatro. O Nuno teve que voltar para o hospital pois já estava há muito tempo na rua. Precisava de estar um pouco sozinha por isso despedi-me dele e fui até ao ginásio. Estava vazio. Ninguém treinou naquele dia. Entrei no escritório dele e vi uma foto minha e dele com medalhas de ouro. Sorri. Tinham sido momentos fantásticos mesmo com muita dor. Sentei-me na cadeira e comecei a escrever:
Querido treinador Pedro,
Li a tua carta, li a tua carta vezes a fio, percorri todas as letras, frases, parágrafos que escreveste com os meus olhos. Senti na pele dos meus dedos partes humedecidas na carta o que supus serem lágrimas. Nunca te tinha visto chorar, não tive esse privilégio porque partiste na altura errada, não devias ter saído da minha vida ainda com tantas coisas para te dizer.
Quando entrei naquele ginásio com oito anos e te vi, daquele jeito, em baixo, partiu-me o coração. Quis-te mostrar que podíamos ultrapassar tudo se tivéssemos força de vontade, empenho, sacrifício. Queria tanto ter podido ver-te a actuar, nem que fosse uma única vez, mas tu nunca o fizeste. De certa forma compreendia, mas continuava lutando para te impressionar e ficares comigo como treinador. Vou-te confessar uma coisa que nunca te tinha dito, naqueles primeiros treinos que tu me deste, mandavas-me treinar em casa aqueles exercícios estúpidos (era o que pensava na altura) de flexibilidade. Pois, eu não os fazia. Preferia treinar no meu quarto exercícios de equilíbrio. Sabes porquê? Porque te queria impressionar, porque te tinha como um ídolo para mim, tu eras a meta para alcançar. Trabalhava todos os dias para poder um dia ser como tu.
Ao longos dos anos tornaste-me uma atleta segura e eficaz. Mas tornaste-te cada vez mais frio comigo, exigias cada vez mais de mim. Quando dava o meu melhor tu continuavas insatisfeito. Achavas que não me estava a esforçar o suficiente e isso magoava-me, e muito! Mas nunca desisti de ti. Continuei a ir todos os dias ao ginásio e trabalhava o dobro, treinava até não ter pele nos dedos dos pés e das mãos. Olhava para ti e tu continuavas insatisfeito. Aí foi o auge da minha forma. A partir daí começou uma espiral de lesões infernais que nunca mais paravam. Mas aí surpreendeste-me, continuaste comigo e a apostar em mim, deste-me um voto de confiança que mais ninguém dava. Preparavas treinos especiais para mim e evidenciaste as minhas melhores qualidades. Voltei a encontrar o meu ídolo novamente que tinha desaparecido de ti. Fizeste-me acreditar que podia ultrapassar aquele obstáculo, mas sempre que o ultrapassava aparecia um ainda maior. A minha vontade era desistir mas nunca me deixaste faze-lo. Até que chegou o fim. Agora que penso nisso, não viste o meu fim como eu não vi o teu!
Queres saber a minha reacção em relação á tua carta? Pois bem. Não faço a ideia do que sinta…não sei se te odeio ou se ainda te considero o meu ídolo de infância. Fizeste-me acreditar durante aquele tempo das lesões que podia supera-las mesmo sabendo qual seria o meu fim. Quiseste ver-me sofrer como tinhas sofrido. Tu melhor que ninguém, sabias das dores que me assombravam o pé e o joelho mas mesmo assim continuavas a insistir comigo. E eu, parva, achava que sabias o que era melhor para mim. Arruinaste a minha vida quando a podias ter salvo no momento em que soubeste do meu problema no joelho. Os tratamentos eram demasiado dolorosos e longos mas mesmo assim estava sempre sorridente para ti, para te ver feliz. Que parva!
Mas depois vem as lembranças de criança que me impossibilitam de te odiar. Achas isto normal? De certa forma compreendo. Quiseste dar uma segunda oportunidade da tua carreira em mim. Fizeste de mim o que não conseguiste ter…e por isso não te censuro. Por muito que sofra e que tenha sofrido, foste tu que me deste a primeira alegria naquele dia em que me escolheste. Esses momentos não se esquecem…Fui muito feliz ao teu lado e não te trocava por mais ninguém….E acredita, não fui melhor que tu, eu apenas continuei o teu trabalho…acho que nos completamos. A minha carreira foi a continuação da tua e tenho muito orgulho nisso!
Obrigada por me teres ensinado tudo o que haveria para ensinar! Obrigada por me teres tornado numa pessoa melhor!
Descansa em paz!
Ao meu lado encontrava-se um caixote do lixo. Peguei num isqueiro que havia numa gaveta e peguei fogo ao papel e deitei-o para o lixo. Precisava urgentemente de começar um ciclo novo na vida!
magnifico...
ResponderEliminarquero mais...
continua...
lindo....
ResponderEliminarRaquel quando tencionas voltar a postar um novo capitulo?
ResponderEliminarVou ficar á espera.
Beijinhos,
Tatiana.
http://eavidinhadela.blogspot.pt