"És a última peça do meu puzzle...és a última peça do meu coração....és a última peça para ser feliz"

terça-feira, 31 de maio de 2011

Capitulo 8 - A decisão

- Por favor! Vai-te embora….não piores as coisas…

- ‘Cê tem a certeza?

- Não! – virei-me de costas pois já não o conseguia encarar…sentia uma dor demasiado grande. Sinto as mãos dele a pousarem nos meus ombros e uma descarga de adrenalina invade o meu corpo – David…

- Eu estou aqui sempre…

- Mas eu não quero…não quero! Por favor….afasta-te de mim! – pedi choramingando, sentia o meu coração num sufoco constante e quase sem oxigénio para conseguir bombear sangue. A fraqueza do meu corpo estava cada vez mais visível e as minhas pernas estão cada vez mais frágeis.

- É isso que quer?

- Absoluta! – disse sem pensar duas vezes. Ele foi retirando as mãos sob os meus ombros e ouvi-o afastar-se de mim aos poucos. Aquilo estava a quebrar o meu coração aos poucos e por mais que quisesse tentar perceber o que sentia era impossível. Olhei para trás na esperança de encontrar o corpo dele parado a olhar para mim mas já tinha ido embora.

Respirei fundo e voltei para dentro do hospital com o intuito de voltar ao quarto do Nuno para o ver. Quando cheguei ao quarto dele abri a porta e entrei sem fazer barulho como se ele tivesse apenas a dormir. Ao vê-lo assim, daquela maneira, deitado com imensos fios ligados ao corpo e com um barulho ensurdecedor de uma máquina fazia-me sentir triste, desolada. Queria a todo o custo voltar a falar com ele, queria voltar a ouvir a voz dele, queria pedir-lhe desculpa pelo que tinha dito. Queria não me sentir culpada por aquilo que aconteceu…

Cheguei-me para junto da cama e sentei-me num cadeirão que lá se encontrava. Puxei as minhas pernas para junto do meu peito e tentei formar uma “concha” com o meu corpo tentando arranjar energias para me conseguir manter acordada. Fechei os olhos para descansar um pouco…

- Raquel?! – senti alguém a mexer-me nos cabelos

- Nuno? – disse ao abrir os olhos, ainda nem estava a acreditar que estava a vê-lo sentado na cama – Nuno? Ai não acredito! – saltei do cadeirão num impulso e abracei-o mas nesse momento sinto uma dor aguda no pé o que me faz soltar um pequeno gemido

- O que se passa? Estás bem? – perguntou-me preocupado e eu sorri

- Tu acabaste de sair de coma e perguntas-me se estou bem…eu é que devia perguntar e não tu… - disse sorrindo tentando controlar uma dor que sentia mas ao mesmo tempo incrivelmente feliz pelo Nuno – eu vou chamar o médico….

- Não é preciso…eu já aqui estou – ao virar-me estava o médico a entrar dentro da sala – pelo que vejo Nuno já estás a recuperar muito bem…acho que posso dar-te a alta muito rapidamente

- Já?! Tem a certeza doutor?? Não é demasiado cedo… - perguntei preocupada por demais

- Raquel…eu estou bem… - disse o Nuno com um tom de voz sereno e tranquilizador

- Mas… - mesmo assim não estava convencida

- Menina Raquel quem é o médico neste quarto?

- É o senhor mas mesmo assim não fico cem por cento segura… - já estava ao lado do Nuno e instintivamente agarrei-lhe a mão com toda a força que tinha naquele momento (que por acaso era pouca)

- Fica calma Qué! – deu-me um beijo na teste que me fez sorrir de uma forma estranha – Eu estou bem…prometo!

- Eu só não quero que piores…

O médico pediu-me para sair para lhe poder fazer uns últimos exames e averiguar se ele se encontrava mesmo bem. Passado alguns minutos o médico sai e diz que já posso novamente entrar e é isso que faço. Para meu espanto, vejo o Nuno a tirar os tubos que estavam colados ao corpo e a bata verde que tinha vestido.

- O que estás a fazer? Estás louco?

- Não! – ele pegou na minha mão e tirou-me daquele quarto puxando-me em direcção á saída do hospital. Ninguém notou pela nossa presença ao passar-mos pela sala de espera, algo que me deixou bastante perturbada. Já havia um táxi há nossa espera e ele pediu-me para entrar. O Nuno indicou o local para onde queria ir mas eu nem sequer consegui ouvir e as tentativas de descobrir foram em vão. Mas com o avançar da estrada rapidamente descobri o destino.

Ele levou-me para o local onde não queria entrar nas próximas eternidades. Ele abriu a porta do ginásio e aquele cheiro tão característico fez-me voltar a relembrar das minhas performances. Ele puxou-me para dentro e tirou de dentro do bolso dele uma câmara de filmar o que me pôs a pensar.   

- Mas o queres fazer com isso? – perguntei curiosa sem nenhuma ideia na cabeça

- Para mostrar a todo o mundo o teu último programa e como merecias ter tido outra oportunidade na vida.

- Nuno… - olhei para o meu pé e ele já não me dói-a tanto – eu não quero que a minha ultima actuação seja assim tão péssima…

- Qué isso é impossível…tu nunca poderás ser péssima com o talento que tens! Quero muito voltar a ver-te brilhar como eu já te vi fazer…tu és uma rapariga com um talento fora do normal e é injusto não seres reconhecida dessa forma!

- Não é injusto Nuno…eu apenas não tive as oportunidades para o fazer…

- Mas eu só quero ver-te uma última vez Raquel…a última!

- Eu só não quero que essa imagem que tens de mim se desvaneça ao veres-me insegura.  

- Isso nunca vai acontecer meu anjo…confia em mim, tu vais voar, tenho a certeza!

Apenas sorri, dirigi-me para a caixa aonde estava guardado o magnésio e tirei uma pedra dele. Esfreguei nas minhas mãos, nos pés e um pouco nos joelhos e voltei-me para a trave. Pela primeira vez na minha estava em pânico, tinha medo de subir para cima daquele que agora me parecia um monstro. Sem dar por isso já estava sozinha no ginásio e sem sinais do Nuno, o meu coração começou a bombear sangue cada vez com mais intensidade. Sentia-me cada vez mais frágil, até que o “monstro” ganha pernas de uma forma inacreditável e vem na minha direcção. O pânico da minha cara instala-se e dirigi-me rapidamente para a saída mas a porta estava trancada. Para meu desespero aquilo continuava a perseguir-me e uma dor enorme voltou. Não me conseguia mexer, estava pregada ao chão sem me conseguir soltar daquele pesadelo. Tento a todo o custo levantar-me mas as minhas pernas estavam desertas de energia. Já sem forças algumas no meu corpo desligo do mundo.

***

 - Raquel? – ouvi alguém chamar-me. Abri os olhos devagarinho e a primeira imagem que me apareceu foi a da mãe do Nuno

- Onde estou? – ainda estava meia confusa com tudo o que tinha acabado de acontecer

- Oh minha filha…deves estar muito cansada! Ainda estás no quarto do Nuno…como vi que demoraste a sair vim ver como estavas! – ao mesmo tempo que me ajudava a endireitar-me no cadeirão.

- Desculpe…adormeci e nem dei conta…

- Não tens de pedir desculpa… - levantei-me e vi que o Nuno ainda continuava em coma…afinal não tinha passado tudo de um pesadelo criado na minha cabeça. Por um lado fiquei contente pois tinha saído daquele mundo terrível mas por outro lado estava triste pois o Nuno não tinha despertado – já pensaste em ir para casa dormir? Fazia-te bem…este ambiente não te faz nada bem…

- Não…eu quero continuar aqui! Não quero sair de junto dele…

- Tens a certeza? Precisas mesmo de descansar...já viste bem como tens a cara?

- Não se preocupe…

- Raquel ele não vai acordar mais depressa por estares aqui ao pé dele… - disse-me serenamente a mãe dele, o que me fez chorar

- Desculpe…

Desculpem a  demora mas a minha lesão lesão tirou qualquer tempo extra que tivesse;
Queria agradecer a todos os que lêem a minha história...Obrigado a todos *-*
Este capitulo têm um agradecimento especial, é inteiramente para  a  Carla;
Obrigado por me teres aturado no hospital e prometo que farei os possíveis e os impossíveis para estar
o mais rapidamente na estrada ...Adoro-te! =D



sexta-feira, 27 de maio de 2011

Comunicado

Desculpem a demora do novo capitulo mas aconteceu-me algo inesperado e que me deitou completamente a baixo.
Infelizmente lesionei-me na semana passada no meu melhor momento de forma da época e isso deixou-me muito frustrada. Por isso tive sem cabeça para escrever fosse o que fosse...
Neste momento continuo sem treinar mas já posso voltar às minha rotinas habituais e consequentemente estou com mais vontade de escrever.
Talvez neste fim-de-semana volte a postar..

Beijinhos

Raquel =D

sábado, 14 de maio de 2011

Capitulo 8 - A decisão (Preview)


- O que estás aqui a fazer? – disse ainda sem acreditar no que estava a ver à minha frente

- ‘Cê saiu assim de repente da praia e obviamente fiquei preocupado! – disse o David com o seu tom voz suave e tranquilizador. Mas só de me lembrar daquele momento fazia-me ficar com vontade de fugir de todo o mundo!

- Pois mas não precisavas de ter vindo! Eu não preciso de ti neste momento…. – tentei ser o mais fria possível para que ele fosse embora o mais depressa possível

- Mas…

- Mas nada! Vai-te embora… - falei um pouco mais alto e as pessoas que estavam no corredor olharam para nós

- Porque ‘cê me tá tratando desse jeito? Eu fiz alguma coisa que ‘cê não gostou? – ele continuava a afectar demasiado o meu coração e isso punha-me a pensar no que sentia realmente pela segunda vez naquela noite

- Por favor não compliques as coisas… - sussurrei com medo do que pudesse acontecer a seguir

- Não me vou embora enquanto não me disseres porque estás assim desse jeito…

- Só podes estar a gozar comigo… - peguei na mão dele e puxei-o até à entrada do hospital – qual foi a parte que não percebeste que neste momento quero estar sozinha? – disse controlando as lágrimas que se formaram entretanto

- ‘Cê ainda não me explicou o que se está passando? Quem é que está no hospital?

Eu sabia que não podia ficar com os dois, havia um conflito demasiado grande que ainda não me tinha apercebido. Sabia que tinha que optar por um deles e não podia falhar na escolha!


segunda-feira, 9 de maio de 2011

Capitulo 7 - Um novo sentimento, uma nova vida (Parte II)


Segundos antes de o médico começar a falar senti um enorme arrepio a percorrer-me a espinha, algo não estava bem. Algo ainda estava para acontecer, o que me deixou ainda mais nervosa.

- O Nuno ainda se encontra em coma e sem hora para acordar. Neste momento não encontramos nada de grave e por isso só estamos à espera que ele acorde. Pode demorar minutos, horas, dias, meses ou anos – falou o médico

- Desculpe interrompê-lo mas pode-me dizer como é que ele foi atropelado? A culpa foi dele ou foi o condutor do veículo que não o viu? – perguntei

- Não. Ele infelizmente não teve culpa de nada, foi um grupo de assaltantes que estava a sair de uma loja que tinham acabado de roubar. O Nuno estava a passar na passadeira mas como estavam a fugir não se pouparam em desviar-se e levaram-no à frente. Basicamente estava no sítio errado à hora errada!

- O quê? Oh meu Deus! – disse aos soluços a mãe dele

- E esses assaltantes foram pelo menos apanhados? – disse o pai dele

- Foram. Embateram num pesado de mercadorias e foram trazidos para aqui de urgência porque estão em estado grave.

- Eu não acredito! – afinal as vitimas que o meu pai tinha trazido eram os mesmo que tinham atropelado o Nuno – Ai que eu vou lá desligar-lhes as máquinas… - disse ao mesmo tempo que me dirigia para a porta

- Menina tenha calma…as coisas não se resolvem assim! – enquanto me travava

- Como quer que tenha calma! O meu amigo está em coma porque um bando de ladrõezecos decidem ir assaltar uma loja! E eu tenho a certeza de que quando eles saírem daqui vão continuar em liberdade sem serem acusados de nada!

- Mas não vai fazer justiça matando-os…

- Pelo menos tenho a certeza que não voltam a fazer ou acha que eles quando saírem em liberdade vão sair bons samaritanos? Por favor…se acha isso vive noutro país que não o nosso!

- Não se trata disso menina, o que a menina Raquel quer fazer é justiça pelas próprias mãos e isso é errado. Já viu se todos fizessem como a menina?

- Mas não são os outros que têm um amigo em coma…SOU EU! Estou farta de ver pessoas que amo em risco de vida por causa desses aí, que nem sei como lhes chamar. Percebe? Estou FARTA! – o tom da minha voz já estava demasiado alta e nem me tinha apercebido

- Eu percebo o que sentes Raquel – disse a mãe do Nuno calmamente – Mas não podemos tornar-nos como esses miseráveis…temos que ter fé em como eles vão pagar pelo que fizeram ao meu filho.

- Peço desculpa mas não concordo com isso. Desde há muito tempo que oiço o meu pai dizer que prende criminosos e que no dia seguinte já estão em liberdade. Como quer que acredite na justiça se sei perfeitamente que ela não é posta em prática ou que não é correcta? Como quer que confie nos tribunais se eles não fazem justiça e apenas seguem os seus interesses?

- Acalme-se por favor! – disse o médico – a menina sente muita revolta aí dentro e isso não é nada bom!

- Sim, é verdade! Admito que senti uma enorme revolta contra todos os criminosos existentes na face da Terra. Querem saber porquê? Eu explico! Há cerca de cinco anos, o meu pai tinha ido fazer uma patrulha de mota e foi chamado para uma ocorrência que se tinha passado numa loja. O meu pai acabou por perseguir os ladrões de mota e quando estava prestes a apanha-los, um dos assaltantes virou-se para trás e alvejou-o. Ele caiu de forma aparatosa no chão e levou com a mota no braço e ainda rebolou um bom bocado no chão. Eles acabaram por fugir e o meu pai ficou em risco de vida. Como quer que reage a este tipo de situações se eu vejo constantemente, a saírem impunes dos seus crimes?

- Mas vai ver que desta vez vai ser diferente….

- É o que dizem todos os dias….”vai ser diferente”!

Sentei-me novamente no sofá completamente desgastada e super cansada. O meu corpo estava a dar sinais de fadiga e de sono para além, claro, da minha dor do pé que continuava bem presente.

- Já podemos vê-lo? – perguntou esperançada a mãe do Nuno

- Sim podem. Mas tem que ser um de cada vez e só o podem ver fora do quarto. Ainda não é seguro nem para ele nem para vocês entrarem no quarto.

- Por mim pode ser! Eu sou a primeira! – disse a mãe dele ao mesmo tempo que se levantava. Ela foi encaminhada por uma enfermeira enquanto o médico permanecia no mesmo local.

- Menina Raquel? – chamou-me o médico – Precisamos de ver melhor esse pé…preciso que venha comigo!
Não disse nada e fiz o que o médico me tinha mandado. Dirigimo-nos até ao seu gabinete e ele mandou-me tirar os ténis para ver bem o que tinha!

- Deixa-me adivinhar….ginasta? – disse enquanto observava depois de tirar a ligadura.

- Nota-se assim tanto? – sorri orgulhosa por ser reconhecida do que faço

- Com os pés neste estado ou eras ginasta ou tenista! Tens mesmo isto em muito mau estado…

- Nunca fui muito feliz com os pés que tenho. Sempre me deram demasiadas dores de cabeça…

- Então acho que já não te vão dar mais dores de cabeça…

- Como assim?

- Estás expressamente proibida de voltares à ginástica!

Quando esperava mais nada me pudesse deitar ainda mais abaixo eis que chega a pior noticia da minha vida! Era verdade que já andava saturada de tantas lesões mas estava pronta para enfrentar de novo as competições com um enorme sorriso. Era a minha vida, não me lembro de fazer outra coisa que me fizesse tão feliz como a ginástica me proporcionou. A minha carreira não podia acabar assim, daquele jeito, com uma lesão num pé!

As lágrimas que pensava que tinham secado bem há pouco tempo voltaram em força e as recordações do passado invadiram a minha mente sem sequer pedirem autorização. Deitei-me a chorar na maca onde me encontrava e o médico deixou-me estar. Aquilo não podia estar a acontecer…era mau demais! Eu que estava apostada em conseguir o meu melhor resultado e dar o melhor que tinha o corpo em prol de Portugal! Eu não queria, de modo algum, ser a eterna ginasta de trave.

- Por favor diga-me se existe outra solução? Por favor! – implorei por uma solução que não me fizesse desistir da minha vida

- Lamento menina Raquel, mas é completamente impossível continuar com a sua carreira. Já viu bem como tem o seu pé? – ele olhava-me como se fosse obvio a minha desistência

- Mas eu tive sempre assim o meu pé…

- Vou ser sincero consigo menina. Deve ser uma excelente ginástica para poder competir neste estado mas, se continuar, pode trazer muito mais problemas de saúde para si. Desde problemas de coluna até a um esgotamento da sua planta do pé.

- De certeza que não está assim tão mau! Por favor!

Ele não disse nada e eu percebi a sua resposta. As lágrimas continuavam bem presentes no meu rosto e puxei lentamente o meu pé para cima. Finalmente tive coragem de ver bem como é que ele estava e arrepiei-me só de ver metade em carne viva. Toquei ao de leve na ferida e uma dor insuportável explodiu no meu corpo tornando-o demasiado frágil. Encostei a minha cabeça ao pé e até as lágrimas que já escorriam pelo pé faziam com que o meu corpo se contorcesse de dores. Eu já não podia fazer nada, era o fim!

De novo uma enorme raiva apodera-se de mim e, como o médico estava perto de mim, tenho uma repentina descarga de adrenalina e começo a dar-lhe murros no peito para acordar daquele pesadelo.

- Eu quero acordar! – gritava no meio de soluços

- Raquel… - enquanto tentava, inutilmente, travar a minha fúria. Queria acordar, queria despertar daquele terror, queria sorrir, queria ter paz!

- Por favor leve-me novamente para a realidade! - implorava

- Isto é real…

- Não não é! Eu agora devo acordar certo? Isto é só um pesadelo… - a raiva continuava lá e não a conseguia expulsar para fora – Por favor…. – as forças começaram a escassear nos meus braços e aos poucos o médico foi conseguindo controlar os meus braços.

- Vais-te deitar aqui na maca e descansar um pouco! Vou dar-te um calmante para adormeceres…

- Não!

Desci da maca e peguei nos meus ténis voltando a calçar só um. Mas quando me dirigia para a porta fui travada pelo médico.

- Acredita que não há volta a dar, se eu soubesse dizia mas na forma como o tens não há solução! Puseste em cima do teu corpo demasiado treino e esqueceste que o ser humano não é uma máquina!

- O senhor não percebe, nós temos que ser máquinas! Temos que conseguir tirar tudo o que temos e pôr em competição! Se o fiz é porque era feliz, nunca me arrependi de ter passado a minha infância fechada entre quatro paredes a treinar!

- Eu acredito que eras feliz porque para treinares com dores é só por muito amor…

- Não é só por amor…é porque acreditamos que estamos neste mundo por algum propósito! E acredito que o meu passe por isto!

- Raquel…

- Vou apanhar ar…acha que me podem avisar quando for a minha vez de ver o Nuno?

- Claro…

Saí do consultório e dirigi-me para a saída do hospital, ao passar pela sala de espera reparei que ainda estava na cadeira o pai do Nuno. Passei para o lado de fora do hospital apoiada apenas o mais possível num pé apenas. Sentei-me num banco e fiquei a contemplar o céu. O meu telemóvel volta a tocar e desta vez era a Susana, voltei novamente a desligar a chamada. Uma raiva enorme percorre-mo o corpo e estava prestes a espetar o meu telemóvel contra o chão mas uma coisa prendeu-me o olhar. Era uma fotografia que tinha no ecrã do telemóvel, era eu e a Susana na praia a fazer acrobacias mesmo junto à água.

“Nunca mais posso fazer isto, nunca mais”. As minhas palavras saíram tão sumidas que só as ouvi no meu inconsciente. Fiquei ainda uns segundo a olhar para a fotografia e só foi interrompida com o desligar da luz do telemóvel, mas este voltou a acender desta vez com uma chamada do Rafael e novamente desliguei a chamada! O meu corpo, aos poucos começou a entrar numa falência e sentia-me cada vez mais desgastada fisicamente e psicologicamente.

Ouvi de novo o meu telemóvel a tocar e era a Susana, se calhar era melhor atender, pensei.

- Sim… - arrastei a palavra tornando-a quase inaudível   

- Mas tu estás parva? Onde é que estás miúda? – ouvia gritar do outro lado da linha, como não estava com paciência para a estar a ouvi-la gritar desliguei a chamada mas ela voltou-me a ligar

- Voltas a gritar comigo e eu desligo novamente a chamada! – disse muito rapidamente desta vez bem audível

- Mas eu estou preocupada….onde é que estás? O que aconteceu contigo?

- Está tudo bem mas neste momento não me apetece falar com ninguém. Por isso se não te importas, eu preferia desligar a chamada e ficar sozinha com os meus pensamentos!

- Mas amor…por favor diz-nos alguma coisa…

- Amanha depois falamos Su! – desliguei a chamada e nesse momento aparece a mãe do Nuno

- Já viu o seu filho? – perguntei. Ela sentou-se ao meu lado e encarou-me

- Já! Foi agora o pai dele vê-lo. – ela pegou na minha mão – o meu filho já me falou muito de si sabia?  

- Trate-me por Raquel, sinto-me melhor! – sorri – Não sabia, de todo, que ele falava de mim, já que nos conhecemos à pouco tempo.

- Seja sincera comigo, o que sente pelo meu filho?

- Quer que seja franca? – cruzei as minhas pernas – ainda não percebi o meu coração! Eu pensava que sentia uma coisa mas agora tudo foi posto em causa. A pessoa que, supostamente, mexia comigo foi completamente posta em causa com o telefonema do hospital!

- Então quer dizer que não sabe o que sente? Que está aqui com ele, sem saber nada? Veio a correr para aqui porquê?

- Não sei! Mas o meu coração puxou-me para aqui…desde o dia em que nos conhecemos eu senti de imediato uma ligação enorme com ele, como se o conhecesse há anos. Como se fizesse parte de mim…Pensei que fosse uma coisa mas agora não sei…

- Pensava que fosse o quê?

- Amizade…pura e simples amizade! Mas agora….tenho tanto medo do que lhe possa acontecer… - as lágrimas voltaram mas mais tímidas

- O meu filho quando chegou a casa, no dia em que se conheceram, ele vinha muito feliz e percebi de imediato que ele tinha encontrado alguém com quem se identificava e fico muito feliz por isso.

- Ele nunca me falou nisso…aliás, a nossa última conversa não se pode dizer que tenha sido muito amigável…

- Então?

- Andava um pouco sensível hoje e bastante nervosa, o que fez com que não estivesse com tanta paciência e acabei por, sem querer, magoa-lo!

- Compreendo…

- Eu juro que não o queria magoar mas eu estava um pouco com as emoções à flor da pele, desculpe!

- Não tens que pedir desculpas, nem sempre acordamos bem-dispostos e com vontade de sorrir! Por vezes acordamos com os pés de fora e embirramos com tudo e todos, à dias menos bons! – ela reparou melhor em mim e viu que estava descalça – porque está descalça só de um pé?

- Oh… - não sabia o que dizer – pois…

- O Nuno disse-me que estava lesionada…é por isso?

- Desculpe mas isso prefiro guardar para mim mesma… - as lágrimas estavam difíceis de controlar e o desejo era cada vez maior para voltar a ser feliz – é melhor assim…

- Claro como queira! Mas tenha cuidado….lesões nos pés são graves e pode ter problemas na movimentação…e sendo ginasta o controlo corporal é muito importante.

- Eu sei…mas vai tudo correr bem…tenho a certeza!

Tentei convencer-me a mim mesma, mas estava mais do que complicado. Para além de ter as minhas emoções completamente trocadas ainda estava a viver a maior perda da minha vida. Olhei para o telemóvel e vi novamente a fotografia, mostrei-a à mãe do Nuno

- O que vê nesta foto? – disse ao mesmo tempo que lhe dava o telemóvel para a mão – por favor diga-me? – ela olhou para ela e ficou alguns segundos a contempla-la

- Vejo duas raparigas completamente radiantes a fazerem o que gostam…

- Porque é que as coisas não podem ser como essa fotografia? Simplesmente perfeito, alegre, único….

- Olhe minha menina, porque senão não daríamos valor ao que temos…temos que saber lutar pelo que queremos para sermos recompensados! Acredite ou não, mas o amor é isso mesmo, um misto de luta com recompensas…

Nesse momento aparece o pai do Nuno vindo de dentro do hospital.

- Se quiseres já podes ir vê-lo – disse-me

- Claro que quero ir! – levantei-me – Obrigada!

Dirigi-me novamente para dentro do hospital com algum custo, ainda por causa das dores que sentia. Perguntei à enfermeira aonde é que era o quarto e depois fui de imediato ao seu encontro. Foi um pouco complicado encontra-lo porque eram muitos quartos e corredores e mais quartos e salas!

Finalmente encontrei bem lá no fundo de um corredor o número do quarto dele, era o 301. O corredor estava apinhado de macas de ambos os lados com doentes e as suas respectivas famílias. Havia um ambiente desgastado e pesado no ar, havia sofrimento por parte das famílias e acima de tudo muita luta por parte dos doentes para melhorarem.

Encaminhei-me para o quarto a passos pequenos, como se tivesse medo do que pudesse encontrar do outro lado. Quando finalmente cheguei ao quarto o meu coração disparou ao vê-lo deitado na cama.

- Raquel – alguém chamou por mim e eu reconhecia aquela voz, a voz que naquele momento era a última que queria ouvir.  


quarta-feira, 4 de maio de 2011

Capitulo 7 - Um novo sentimento, uma nova vida (Parte I)


Todo o meu corpo ficou petrificado ao ouvir as palavras proferidas pela enfermeira, uma pequena mas muito sentida lágrima escorre-me pela face lentamente enquanto me lembrava da cara dele, do seu sorriso. Ele neste momento estava numa cama de hospital, entre a vida e a morte, e eu ali, tão longe dele mas ao mesmo perto do coração dele. Uma das poucas coisas que naquele momento tinha a certeza era que ele não me era indiferente, não sabia se era amor ou amizade mas naquele momento não interessava em nada.

- O quê? Mas o que aconteceu? – foram as minhas primeiras palavras depois de respirar fundo e de acalmar a respiração. Ainda não estava a acreditar no que estava a acontecer. A última vez que o vira foi a dirigir-se para o autocarro para ir para casa zangado comigo.

- Ele foi atropelado quando atravessava uma rua, o seu estado é crítico. – Podia tê-lo conhecido á pouco tempo mas já tínhamos uma grande afinidade e o facto de ele estar numa cama de hospital em estado grave mexeu demasiado comigo.  

- Eu vou já para aí! Obrigada!

Desliguei o telemóvel e olhei para o David que tinha deixado de comer para olhar para mim e perceber o que estava a acontecer. Outra lágrima volta a escorrer e a vontade de ficar ali, simplesmente com ele, era tão grande que me estava a apertar o coração de tal maneira que quase sufocava. A noite estava a decorrer tão bem e teve que ser interrompida por uma emergência.

Levantei-me rapidamente e uma dor aguda e forte aparece no meu pé o que me faz chorar ainda mais.

- Desculpa mas tenho que ir! – disse tentando controlar as minhas emoções que me assombravam o coração. 

Mas antes de me encaminhar para as escadas fui travada pelo braço do David

- O que é que se passou? Onde ‘cê vai?

- Aconteceu uma coisa e eu tenho que me pôr imediatamente fora daqui!  

- Mas…

- Mas nada! Adeus!

Agarrei na minha mala e pus-me a correr pela praia enquanto tentava controlar as dores do meu pé que continuavam a atormentar a minha vida.

Ainda nem estava a acreditar no que se estava a passar, acima de tudo porque estávamos meio zangados um com o outro. Sentia-me mal pelas últimas palavras que lhe tinha dito, pelo facto de se calhar o ter magoado e nem sequer tenha reparado. Um nó mesmo no fundo do coração formou-se e estava a sufocar-me e acima de tudo, um medo enorme de chegar ao hospital e saber que ele não tinha resistido estava-me a corromper por dentro.

Ao subir a escadaria não demorei muito tempo para conseguir encontrar um táxi que me pudesse levar ao hospital. Ao sentar-me no banco de trás do táxi e depois de ter informado o meu destino é que olhei convenientemente para o meu pé. Descalcei o ténis e no fundo havia uma pequena mancha de sangue e outra bastante grande na ligadura. Uma raiva enorme percorreu o meu corpo, só tinha vontade de espetar com os ténis contra as portas do carro e sair daquele pesadelo.

Não sei quanto tempo é que foi de caminho mas quando cheguei ao hospital depressa paguei ao taxista e dirigi-me para a entrada. Quando estava para entrar oiço a sirene de uma ambulância que me faz travar a marcha e olho para trás. Tinha acabado de chegar uma ambulância que muito rapidamente tiram uma pessoa de dentro em maca. Atrás da ambulância surge um carro que supus que fossem familiares. De dentro do hospital sai uma equipa de médicos que depressa ajudam a levar a maca para dentro. Ao passar por mim vejo que quem estava na maca era uma criança completamente queimada com os pais atrás a tentarem acompanhar o seu filho. Aquela imagem, aquele momento, aquele sofrimento comove-me deixando-me ainda mais vulnerável às emoções.

Depois de respirar fundo e de conseguir arranjar coragem entrei depressa no hospital e fui de imediato à recepção.

- Boa noite. Ligaram-me á pouco a dizer que deu entrada no hospital um rapaz que tinha sofrido um atropelamento. Queria saber como ele está… - as minhas palavras saiam atropeladas

- A senhora é a Raquel Alves? – perguntou-me calmamente

- Sim sou!

- Eu vou avisar o médico que a senhora já chegou para lhe vir dar as notícias. É só esperar na sala de espera…

- Mas não me pode dizer já? Por favor diga-me qualquer coisa… - supliquei

- Peço desculpa mas não poço dizer mais do que isso, o médico já vai vir para lhe explicar o que sucedeu!

- Está bem! – acabei por me resignar. Mas antes de poder ir embora a enfermeira voltou a falar 

- A menina está a deitar sangue do pé - apontando para uma mancha de sangue que vinha da minha ligadura. Ela veio logo ver o que se estava a passar - Deixa ver isso! - tirou-me o ténis e ficou aterrorizada ao ver o estado da minha ferida - vamos já tratar disso! - ela foi chamar alguém e levaram-me para o sala para ser analisada.

Em poucos minutos apareceu alguém que me tratou do pé e pôs-me uma espécie de ligadura no pé e mandou-me não esforçar demasiado o pé.

Em seguida dirigi-me à sala de espera e sentei-me na cadeira mais isolada da sala. Sentei-me de uma maneira pouco ortodoxa na cadeira mas precisava de estar o mais encolhida possível para não começar a gritar no hospital. Fechei os olhos e coloquei a minha cabeça em cima dos joelhos fazendo de uma almofada. Apertei bem para mim, as minhas pernas e tentei acalmar a minha respiração e tentar não pensar em coisas negativas que pairavam na minha cabeça.

Levantei um pouco a cabeça e olhei em meu redor, havia varias pessoas sentadas visivelmente abatidas e à espera de uma notícia do médico. Um ambiente de terror e de medo pairava naquela sala juntamente com um silêncio aterrador que só era interrompido com o barulho de uma criança que brincava aos castelos com legos.

Esse mesmo silêncio, desta vez, foi interrompido pelo toque do meu telemóvel, olhei para o visor e o nome que apareceu tinha sido o do David. Desliguei a chamada, não queria falar com ele e com ninguém, apenas com o médico que continuava sem aparecer.

Sem reparar, aproximasse de mim uma senhora que se encontrava a poucas cadeiras da minha.

- A menina está bem? Precisa de alguma coisa? – perguntou-me delicadamente.

Levanto novamente a minha cabeça que estava pousada nos meus joelhos e olho pela primeira vez para a senhora. Devia estar na casa dos trinta e cinco anos, mais ou menos da idade da minha mãe. Ela estica o seu braço na minha direcção com um lenço na mão e com um pequeno sorriso no rosto.

- Obrigada! – foi a única coisa que disse.

Peguei no lenço branco e tentei enxugar as lágrimas que teimavam a cair desesperadamente pelo rosto.

- A menina precisa de alguma coisa? Está aqui sozinha?

- Não obrigada! Sim, estou aqui sozinha… - não consegui formar frases para ter uma conversa minimamente decente

- Parece que não estás com cabeça para conversar e eu compreendo. Se precisares de falar ou de outra coisa eu estou ali!

Ela saiu de ao pé de mim e foi-se novamente sentar no lugar onde se encontrava quando cheguei. Entretanto chega um casal bastante abalado que se senta perto de mim, mas um nome despertou a minha atenção. Olhei bem para eles e, provavelmente seriam os pais do Nuno pois ele tinha os traços do rosto da mãe, pelo menos parecia-me. Sentei-me como pessoa normal e dirigi-me a eles.

- Desculpe interrompê-los mas são os pais do Nuno Ribeiro? – a cara que a senhora fez deu de imediato para perceber que o conhecia

- Sim! – respondeu o senhor – E quem é a menina? Como conhece o nosso filho? – o pai dele estava muito mais calmo que a mãe dele, ela estava visivelmente abalada e o choro era bastante audível

- Eu sou amiga do seu filho. Telefonara-me à pouco a dizer que ele se encontrava em coma e eu vim de imediato para aqui.

- Como se chama? – perguntou-me a mãe depois de olhar-me de cima a baixo

- Chamo-me Raquel Alves.

- Obrigada por fazeres o meu filho feliz! – disse-me misteriosamente com uma voz calma e suave

Antes de perguntar o que aquilo significava chega o médico  

- Familiares do Nuno Ribeiro? – perguntou com uma voz rouca

- Eu sou amiga…chamaram-me quando ele deu entrada no hospital…

- Nós somos os pais! Por favor digam-nos como é que ele está… - disse o pai do Nuno

- Muito bem…então vou-lhes dar o diagnóstico do Nuno – pausou o seu discurso – o Nuno encontra-se neste momento em estado de coma sem hora prevista para acordar. Pelos exames que lhe foram feitos, não tem lesões internas nem externas graves, pelo que ainda estamos a descobrir o que lhe causou a perda dos sentidos e consequentemente o coma.

- Mas ele está em perigo de vida? – perguntei desesperada

- Não…neste momento já não está em estado crítico mas não lhe podemos assegurar que o seu estado melhore. Ele quando deu entrada neste hospital estava ainda na posso de todas as suas faculdades mentais mas de um momento para o outro tudo mudou.

- Quais foram as suas últimas palavras? – perguntou a mãe aos soluços. Antes de responder, o médico olhou para mim

- Raquel…

O meu coração disparou ao ouvir o meu nome, a última palavra que tinha proferido era o nome da pessoa com quem estava zangado. Um enorme turbilhão de ideias invade a minha mente mas não conseguia chegar ao porquê de ele dizer o meu nome. Tinha medo que ele não dissesse mais nada e que não tivesse a oportunidade de lhe pedir desculpas.

- Acha que podemos vê-lo? – perguntou o pai dele

- Neste momento não porque ainda se encontra a realizar exames. Depois mando alguém avisá-los que já o pode visitar.

- Está bem! – O médico foi-se embora e eu voltei sentar-me na minha cadeira.

Nesse momento volta a tocar o meu telemóvel mas desta vez era a Susana, voltei novamente a recusar a chamada e desta vez desliguei o telemóvel.

- Filha? – ouvi uma voz masculina que de imediato vi quem era

- Pai? – disse ao avista-lo na entrada da sala de espera. Levantei-me e dirigi-me muito rapidamente para junto dele – o que é que estás aqui a fazer?

- Ouve um acidente na A1 perto do nó do Carregado, um ligeiro embateu contra um pesado de mercadorias. Resultou em duas mortes e três feridos graves e eu tive que vir escoltar os três feridos graves aqui ao hospital para levar o relatório para o comandante. E tu, minha menina, o que estás aqui a fazer?

- Pai, de certeza que vieste muito rápido! Eu sei que os carros da GNR andam muito rápido mas sabes perfeitamente que eu fico com o coração nas mãos sempre que escoltas acidentes! – tentei desviar o assunto

Ser filha de um GNR – BT era muito complicado pois andávamos sempre com o coração apertado sempre que iria trabalhar. Nunca sabia se ele chegava a casa vivo ou morto pois tinha pavor aos assaltantes que disparam contra os policias. Saber que o meu pai tem que fazer uma perseguição a um grupo de ladrões quase todos os dias deixa-me apavorada.

- É o meu trabalho filha. Mas ainda não me disseste o que estás aqui a fazer? – desta vez não tinha escapatória possível

- É um amigo meu que está em coma… - disse controlando as lágrimas

- A sério? Quem é?

- É um amigo da faculdade muito importante…

- Eu até ficava aqui contigo mas sabes como é…

- Eu sei pai! – já estava habituada aos horários do meu pai que raramente tinha tempo para mim. Entretanto chega o colega do meu pai

- Já podemos ir, Alves! Amanhã temos que cá voltar para os interrogar e leva-los a tribunal.

- Amanhã já estão prontos a falar? – perguntou

- Os médicos disseram que sim…vamos ver! – o colega do meu pai olha para mim – Raquel? O que estás aqui a fazer?

- Boa noite Sr. Costa. Um amigo meu está aqui no hospital… - disse novamente e doía-me cada vez mais dizer que ele se encontrava no hospital

- Isso é que é mau. Desculpa se o teu pai não pode ficar aqui mas sabes como isto é…não posso fazer o resto da patrulha sozinho!

- Eu sei! Não se preocupe!

Despedi-me do meu pai calmamente, e depois de os ver desaparecer no horizonte voltei para a minha cadeira. Voltei-me a sentar na cadeira de forma pouco ortodoxa e fechei-me nos meus pensamentos e tristezas. De repente sinto umas mãozinhas no meu ombro que me fazem despertar, olhou em frente e era a criança que brincava com legos na sala de espera.

- É pa ti… - disse com um sorriso enorme no rosto. Tinha um castelo pequeno feito de legos na mão com cores bastante aguerridas.

- Oh…não posso aceitar….foste tu que o fizeste! – disse quando passava a mão pela sua face

- Aceita aceita! É pa não ficaes tiste! Foi a minha mamã que disse! – eu olho para a mãe do menino e era a mesma senhora que me tinha oferecido o lenço. Ela estava com um sorriso encantador e o menino também.

- Anda cá! – disse enquanto limpava as lágrimas e puxava as pernas para baixo – assenta aqui! – enquanto o puxava para o meu colo

- Gostas? – disse exibindo o seu castelo nas mãos dele

- Gosto muito! É muito bonito…era mesmo de um castelo que estava a precisar para me esconder!

- Mas este é pequenino…eu faço outo gande! – ele queria sair para fazer outro grande mas eu parei-o

- Não é preciso meu amor! Mas estas a ver esta senhora aqui… - disse enquanto apontava para a mãe do Nuno – vai-lhe oferecer este castelo…ele precisa dele mais do que eu!

- Não…este é pa ti! Eu faço outo pa senhoa tiste! – depressa saiu do meu colo e dirigiu-se para a caixa dos legos. Enquanto eu dirigi-me à mãe do menino com o castelo na mão.

- Obrigada! Tem um filho adorável…

- Não tem que agradecer…foi ele que reparou que a menina estava triste e que teve a ideia de lhe fazer um castelo. Gostou?

- Adorei! – olhei de novo para o castelo às cores e lembrei-me do meu tempo de infância – já tinha saudades de ver brinquedos feitos de legos. Eu com a idade dele brincava imenso com isto formando torres enormes e depois deitava-as a baixo super contente!

- É! É uma alegria enorme ver o meu filho brincado com estes legos todos formando um mundo imaginário perfeito para ser feliz! - sorri

- Sem querendo meter-me na sua vida pessoal, tem aqui algum familiar?

- Não faz mal….é o meu marido! Teve um acidente no trabalho…foi alvejado enquanto tentava travar um grupo de assaltantes que queria arrombar umas portagens…

- É policia o seu marido?

- É… - a sua voz sumiu de repente e começou a chorar convulsivamente. Abracei-a e tentei acalma-la

- Eu compreendo como se sente…sei que deve estar a sentir uma raiva enorme mas de certeza que esses assaltantes irão pagar pelo que fizeram ao seu marido!

- Como sabe o que sinto…?

- O meu pai é GNR e também põe em risco todos os dias a sua vida em perigo para o bem da sociedade. Eu sei que deve estar com medo que o seu marido não veja o crescimento do seu filho mas de certeza que ele terá muito orgulho no seu pai como eu tenho no meu!

- Eu acordo todos os dias com um aperto no coração a pensar que ele pode não chegar vivo a casa! Quando hoje recebi que ele tinha sido alvejado em pleno trabalho o meu coração partiu-se em bocadinhos e tive tanto medo que ele morresse!

- A mim acontece-me o mesmo mas sabe o que me faz ter muito orgulho nele? É saber que ele é protege a sociedade com alma e coração e que não se importa de morrer em prol da nação. É por isso que tenho orgulho no meu pai e o seu filho terá de certeza orgulho no pai, como a senhora também tem!

- Sim! Sem dúvida! Vê-lo nas paradas com o símbolo do país no peito faz-me sentir que conheço o melhor homem do mundo!

- Vê! Vai ver que tudo vai correr bem… - disse enquanto a abraçava

- Obrigada! Obrigada por esta conversa…

- De nada…

- Familiares do Nuno Ribeiro?

Aquelas palavras fizeram-me despertar de novo para o problema que me trouxe ao hospital. Dirigi-me até ao médico que estava junto aos pais do Nuno e ouvi atentamente o que ele tinha para nos dizer.