"És a última peça do meu puzzle...és a última peça do meu coração....és a última peça para ser feliz"

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Capitulo 7 - Um novo sentimento, uma nova vida (Parte I)


Todo o meu corpo ficou petrificado ao ouvir as palavras proferidas pela enfermeira, uma pequena mas muito sentida lágrima escorre-me pela face lentamente enquanto me lembrava da cara dele, do seu sorriso. Ele neste momento estava numa cama de hospital, entre a vida e a morte, e eu ali, tão longe dele mas ao mesmo perto do coração dele. Uma das poucas coisas que naquele momento tinha a certeza era que ele não me era indiferente, não sabia se era amor ou amizade mas naquele momento não interessava em nada.

- O quê? Mas o que aconteceu? – foram as minhas primeiras palavras depois de respirar fundo e de acalmar a respiração. Ainda não estava a acreditar no que estava a acontecer. A última vez que o vira foi a dirigir-se para o autocarro para ir para casa zangado comigo.

- Ele foi atropelado quando atravessava uma rua, o seu estado é crítico. – Podia tê-lo conhecido á pouco tempo mas já tínhamos uma grande afinidade e o facto de ele estar numa cama de hospital em estado grave mexeu demasiado comigo.  

- Eu vou já para aí! Obrigada!

Desliguei o telemóvel e olhei para o David que tinha deixado de comer para olhar para mim e perceber o que estava a acontecer. Outra lágrima volta a escorrer e a vontade de ficar ali, simplesmente com ele, era tão grande que me estava a apertar o coração de tal maneira que quase sufocava. A noite estava a decorrer tão bem e teve que ser interrompida por uma emergência.

Levantei-me rapidamente e uma dor aguda e forte aparece no meu pé o que me faz chorar ainda mais.

- Desculpa mas tenho que ir! – disse tentando controlar as minhas emoções que me assombravam o coração. 

Mas antes de me encaminhar para as escadas fui travada pelo braço do David

- O que é que se passou? Onde ‘cê vai?

- Aconteceu uma coisa e eu tenho que me pôr imediatamente fora daqui!  

- Mas…

- Mas nada! Adeus!

Agarrei na minha mala e pus-me a correr pela praia enquanto tentava controlar as dores do meu pé que continuavam a atormentar a minha vida.

Ainda nem estava a acreditar no que se estava a passar, acima de tudo porque estávamos meio zangados um com o outro. Sentia-me mal pelas últimas palavras que lhe tinha dito, pelo facto de se calhar o ter magoado e nem sequer tenha reparado. Um nó mesmo no fundo do coração formou-se e estava a sufocar-me e acima de tudo, um medo enorme de chegar ao hospital e saber que ele não tinha resistido estava-me a corromper por dentro.

Ao subir a escadaria não demorei muito tempo para conseguir encontrar um táxi que me pudesse levar ao hospital. Ao sentar-me no banco de trás do táxi e depois de ter informado o meu destino é que olhei convenientemente para o meu pé. Descalcei o ténis e no fundo havia uma pequena mancha de sangue e outra bastante grande na ligadura. Uma raiva enorme percorreu o meu corpo, só tinha vontade de espetar com os ténis contra as portas do carro e sair daquele pesadelo.

Não sei quanto tempo é que foi de caminho mas quando cheguei ao hospital depressa paguei ao taxista e dirigi-me para a entrada. Quando estava para entrar oiço a sirene de uma ambulância que me faz travar a marcha e olho para trás. Tinha acabado de chegar uma ambulância que muito rapidamente tiram uma pessoa de dentro em maca. Atrás da ambulância surge um carro que supus que fossem familiares. De dentro do hospital sai uma equipa de médicos que depressa ajudam a levar a maca para dentro. Ao passar por mim vejo que quem estava na maca era uma criança completamente queimada com os pais atrás a tentarem acompanhar o seu filho. Aquela imagem, aquele momento, aquele sofrimento comove-me deixando-me ainda mais vulnerável às emoções.

Depois de respirar fundo e de conseguir arranjar coragem entrei depressa no hospital e fui de imediato à recepção.

- Boa noite. Ligaram-me á pouco a dizer que deu entrada no hospital um rapaz que tinha sofrido um atropelamento. Queria saber como ele está… - as minhas palavras saiam atropeladas

- A senhora é a Raquel Alves? – perguntou-me calmamente

- Sim sou!

- Eu vou avisar o médico que a senhora já chegou para lhe vir dar as notícias. É só esperar na sala de espera…

- Mas não me pode dizer já? Por favor diga-me qualquer coisa… - supliquei

- Peço desculpa mas não poço dizer mais do que isso, o médico já vai vir para lhe explicar o que sucedeu!

- Está bem! – acabei por me resignar. Mas antes de poder ir embora a enfermeira voltou a falar 

- A menina está a deitar sangue do pé - apontando para uma mancha de sangue que vinha da minha ligadura. Ela veio logo ver o que se estava a passar - Deixa ver isso! - tirou-me o ténis e ficou aterrorizada ao ver o estado da minha ferida - vamos já tratar disso! - ela foi chamar alguém e levaram-me para o sala para ser analisada.

Em poucos minutos apareceu alguém que me tratou do pé e pôs-me uma espécie de ligadura no pé e mandou-me não esforçar demasiado o pé.

Em seguida dirigi-me à sala de espera e sentei-me na cadeira mais isolada da sala. Sentei-me de uma maneira pouco ortodoxa na cadeira mas precisava de estar o mais encolhida possível para não começar a gritar no hospital. Fechei os olhos e coloquei a minha cabeça em cima dos joelhos fazendo de uma almofada. Apertei bem para mim, as minhas pernas e tentei acalmar a minha respiração e tentar não pensar em coisas negativas que pairavam na minha cabeça.

Levantei um pouco a cabeça e olhei em meu redor, havia varias pessoas sentadas visivelmente abatidas e à espera de uma notícia do médico. Um ambiente de terror e de medo pairava naquela sala juntamente com um silêncio aterrador que só era interrompido com o barulho de uma criança que brincava aos castelos com legos.

Esse mesmo silêncio, desta vez, foi interrompido pelo toque do meu telemóvel, olhei para o visor e o nome que apareceu tinha sido o do David. Desliguei a chamada, não queria falar com ele e com ninguém, apenas com o médico que continuava sem aparecer.

Sem reparar, aproximasse de mim uma senhora que se encontrava a poucas cadeiras da minha.

- A menina está bem? Precisa de alguma coisa? – perguntou-me delicadamente.

Levanto novamente a minha cabeça que estava pousada nos meus joelhos e olho pela primeira vez para a senhora. Devia estar na casa dos trinta e cinco anos, mais ou menos da idade da minha mãe. Ela estica o seu braço na minha direcção com um lenço na mão e com um pequeno sorriso no rosto.

- Obrigada! – foi a única coisa que disse.

Peguei no lenço branco e tentei enxugar as lágrimas que teimavam a cair desesperadamente pelo rosto.

- A menina precisa de alguma coisa? Está aqui sozinha?

- Não obrigada! Sim, estou aqui sozinha… - não consegui formar frases para ter uma conversa minimamente decente

- Parece que não estás com cabeça para conversar e eu compreendo. Se precisares de falar ou de outra coisa eu estou ali!

Ela saiu de ao pé de mim e foi-se novamente sentar no lugar onde se encontrava quando cheguei. Entretanto chega um casal bastante abalado que se senta perto de mim, mas um nome despertou a minha atenção. Olhei bem para eles e, provavelmente seriam os pais do Nuno pois ele tinha os traços do rosto da mãe, pelo menos parecia-me. Sentei-me como pessoa normal e dirigi-me a eles.

- Desculpe interrompê-los mas são os pais do Nuno Ribeiro? – a cara que a senhora fez deu de imediato para perceber que o conhecia

- Sim! – respondeu o senhor – E quem é a menina? Como conhece o nosso filho? – o pai dele estava muito mais calmo que a mãe dele, ela estava visivelmente abalada e o choro era bastante audível

- Eu sou amiga do seu filho. Telefonara-me à pouco a dizer que ele se encontrava em coma e eu vim de imediato para aqui.

- Como se chama? – perguntou-me a mãe depois de olhar-me de cima a baixo

- Chamo-me Raquel Alves.

- Obrigada por fazeres o meu filho feliz! – disse-me misteriosamente com uma voz calma e suave

Antes de perguntar o que aquilo significava chega o médico  

- Familiares do Nuno Ribeiro? – perguntou com uma voz rouca

- Eu sou amiga…chamaram-me quando ele deu entrada no hospital…

- Nós somos os pais! Por favor digam-nos como é que ele está… - disse o pai do Nuno

- Muito bem…então vou-lhes dar o diagnóstico do Nuno – pausou o seu discurso – o Nuno encontra-se neste momento em estado de coma sem hora prevista para acordar. Pelos exames que lhe foram feitos, não tem lesões internas nem externas graves, pelo que ainda estamos a descobrir o que lhe causou a perda dos sentidos e consequentemente o coma.

- Mas ele está em perigo de vida? – perguntei desesperada

- Não…neste momento já não está em estado crítico mas não lhe podemos assegurar que o seu estado melhore. Ele quando deu entrada neste hospital estava ainda na posso de todas as suas faculdades mentais mas de um momento para o outro tudo mudou.

- Quais foram as suas últimas palavras? – perguntou a mãe aos soluços. Antes de responder, o médico olhou para mim

- Raquel…

O meu coração disparou ao ouvir o meu nome, a última palavra que tinha proferido era o nome da pessoa com quem estava zangado. Um enorme turbilhão de ideias invade a minha mente mas não conseguia chegar ao porquê de ele dizer o meu nome. Tinha medo que ele não dissesse mais nada e que não tivesse a oportunidade de lhe pedir desculpas.

- Acha que podemos vê-lo? – perguntou o pai dele

- Neste momento não porque ainda se encontra a realizar exames. Depois mando alguém avisá-los que já o pode visitar.

- Está bem! – O médico foi-se embora e eu voltei sentar-me na minha cadeira.

Nesse momento volta a tocar o meu telemóvel mas desta vez era a Susana, voltei novamente a recusar a chamada e desta vez desliguei o telemóvel.

- Filha? – ouvi uma voz masculina que de imediato vi quem era

- Pai? – disse ao avista-lo na entrada da sala de espera. Levantei-me e dirigi-me muito rapidamente para junto dele – o que é que estás aqui a fazer?

- Ouve um acidente na A1 perto do nó do Carregado, um ligeiro embateu contra um pesado de mercadorias. Resultou em duas mortes e três feridos graves e eu tive que vir escoltar os três feridos graves aqui ao hospital para levar o relatório para o comandante. E tu, minha menina, o que estás aqui a fazer?

- Pai, de certeza que vieste muito rápido! Eu sei que os carros da GNR andam muito rápido mas sabes perfeitamente que eu fico com o coração nas mãos sempre que escoltas acidentes! – tentei desviar o assunto

Ser filha de um GNR – BT era muito complicado pois andávamos sempre com o coração apertado sempre que iria trabalhar. Nunca sabia se ele chegava a casa vivo ou morto pois tinha pavor aos assaltantes que disparam contra os policias. Saber que o meu pai tem que fazer uma perseguição a um grupo de ladrões quase todos os dias deixa-me apavorada.

- É o meu trabalho filha. Mas ainda não me disseste o que estás aqui a fazer? – desta vez não tinha escapatória possível

- É um amigo meu que está em coma… - disse controlando as lágrimas

- A sério? Quem é?

- É um amigo da faculdade muito importante…

- Eu até ficava aqui contigo mas sabes como é…

- Eu sei pai! – já estava habituada aos horários do meu pai que raramente tinha tempo para mim. Entretanto chega o colega do meu pai

- Já podemos ir, Alves! Amanhã temos que cá voltar para os interrogar e leva-los a tribunal.

- Amanhã já estão prontos a falar? – perguntou

- Os médicos disseram que sim…vamos ver! – o colega do meu pai olha para mim – Raquel? O que estás aqui a fazer?

- Boa noite Sr. Costa. Um amigo meu está aqui no hospital… - disse novamente e doía-me cada vez mais dizer que ele se encontrava no hospital

- Isso é que é mau. Desculpa se o teu pai não pode ficar aqui mas sabes como isto é…não posso fazer o resto da patrulha sozinho!

- Eu sei! Não se preocupe!

Despedi-me do meu pai calmamente, e depois de os ver desaparecer no horizonte voltei para a minha cadeira. Voltei-me a sentar na cadeira de forma pouco ortodoxa e fechei-me nos meus pensamentos e tristezas. De repente sinto umas mãozinhas no meu ombro que me fazem despertar, olhou em frente e era a criança que brincava com legos na sala de espera.

- É pa ti… - disse com um sorriso enorme no rosto. Tinha um castelo pequeno feito de legos na mão com cores bastante aguerridas.

- Oh…não posso aceitar….foste tu que o fizeste! – disse quando passava a mão pela sua face

- Aceita aceita! É pa não ficaes tiste! Foi a minha mamã que disse! – eu olho para a mãe do menino e era a mesma senhora que me tinha oferecido o lenço. Ela estava com um sorriso encantador e o menino também.

- Anda cá! – disse enquanto limpava as lágrimas e puxava as pernas para baixo – assenta aqui! – enquanto o puxava para o meu colo

- Gostas? – disse exibindo o seu castelo nas mãos dele

- Gosto muito! É muito bonito…era mesmo de um castelo que estava a precisar para me esconder!

- Mas este é pequenino…eu faço outo gande! – ele queria sair para fazer outro grande mas eu parei-o

- Não é preciso meu amor! Mas estas a ver esta senhora aqui… - disse enquanto apontava para a mãe do Nuno – vai-lhe oferecer este castelo…ele precisa dele mais do que eu!

- Não…este é pa ti! Eu faço outo pa senhoa tiste! – depressa saiu do meu colo e dirigiu-se para a caixa dos legos. Enquanto eu dirigi-me à mãe do menino com o castelo na mão.

- Obrigada! Tem um filho adorável…

- Não tem que agradecer…foi ele que reparou que a menina estava triste e que teve a ideia de lhe fazer um castelo. Gostou?

- Adorei! – olhei de novo para o castelo às cores e lembrei-me do meu tempo de infância – já tinha saudades de ver brinquedos feitos de legos. Eu com a idade dele brincava imenso com isto formando torres enormes e depois deitava-as a baixo super contente!

- É! É uma alegria enorme ver o meu filho brincado com estes legos todos formando um mundo imaginário perfeito para ser feliz! - sorri

- Sem querendo meter-me na sua vida pessoal, tem aqui algum familiar?

- Não faz mal….é o meu marido! Teve um acidente no trabalho…foi alvejado enquanto tentava travar um grupo de assaltantes que queria arrombar umas portagens…

- É policia o seu marido?

- É… - a sua voz sumiu de repente e começou a chorar convulsivamente. Abracei-a e tentei acalma-la

- Eu compreendo como se sente…sei que deve estar a sentir uma raiva enorme mas de certeza que esses assaltantes irão pagar pelo que fizeram ao seu marido!

- Como sabe o que sinto…?

- O meu pai é GNR e também põe em risco todos os dias a sua vida em perigo para o bem da sociedade. Eu sei que deve estar com medo que o seu marido não veja o crescimento do seu filho mas de certeza que ele terá muito orgulho no seu pai como eu tenho no meu!

- Eu acordo todos os dias com um aperto no coração a pensar que ele pode não chegar vivo a casa! Quando hoje recebi que ele tinha sido alvejado em pleno trabalho o meu coração partiu-se em bocadinhos e tive tanto medo que ele morresse!

- A mim acontece-me o mesmo mas sabe o que me faz ter muito orgulho nele? É saber que ele é protege a sociedade com alma e coração e que não se importa de morrer em prol da nação. É por isso que tenho orgulho no meu pai e o seu filho terá de certeza orgulho no pai, como a senhora também tem!

- Sim! Sem dúvida! Vê-lo nas paradas com o símbolo do país no peito faz-me sentir que conheço o melhor homem do mundo!

- Vê! Vai ver que tudo vai correr bem… - disse enquanto a abraçava

- Obrigada! Obrigada por esta conversa…

- De nada…

- Familiares do Nuno Ribeiro?

Aquelas palavras fizeram-me despertar de novo para o problema que me trouxe ao hospital. Dirigi-me até ao médico que estava junto aos pais do Nuno e ouvi atentamente o que ele tinha para nos dizer.


2 comentários:

  1. ta giro. mas coitado do Nuno e do Davi.continua

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  2. esta muito bom !!!!
    continua
    fico a espera do proximo
    beijinhos

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