Segundos antes de o médico começar a falar senti um enorme arrepio a percorrer-me a espinha, algo não estava bem. Algo ainda estava para acontecer, o que me deixou ainda mais nervosa.
- O Nuno ainda se encontra em coma e sem hora para acordar. Neste momento não encontramos nada de grave e por isso só estamos à espera que ele acorde. Pode demorar minutos, horas, dias, meses ou anos – falou o médico
- Desculpe interrompê-lo mas pode-me dizer como é que ele foi atropelado? A culpa foi dele ou foi o condutor do veículo que não o viu? – perguntei
- Não. Ele infelizmente não teve culpa de nada, foi um grupo de assaltantes que estava a sair de uma loja que tinham acabado de roubar. O Nuno estava a passar na passadeira mas como estavam a fugir não se pouparam em desviar-se e levaram-no à frente. Basicamente estava no sítio errado à hora errada!
- O quê? Oh meu Deus! – disse aos soluços a mãe dele
- E esses assaltantes foram pelo menos apanhados? – disse o pai dele
- Foram. Embateram num pesado de mercadorias e foram trazidos para aqui de urgência porque estão em estado grave.
- Eu não acredito! – afinal as vitimas que o meu pai tinha trazido eram os mesmo que tinham atropelado o Nuno – Ai que eu vou lá desligar-lhes as máquinas… - disse ao mesmo tempo que me dirigia para a porta
- Menina tenha calma…as coisas não se resolvem assim! – enquanto me travava
- Como quer que tenha calma! O meu amigo está em coma porque um bando de ladrõezecos decidem ir assaltar uma loja! E eu tenho a certeza de que quando eles saírem daqui vão continuar em liberdade sem serem acusados de nada!
- Mas não vai fazer justiça matando-os…
- Pelo menos tenho a certeza que não voltam a fazer ou acha que eles quando saírem em liberdade vão sair bons samaritanos? Por favor…se acha isso vive noutro país que não o nosso!
- Não se trata disso menina, o que a menina Raquel quer fazer é justiça pelas próprias mãos e isso é errado. Já viu se todos fizessem como a menina?
- Mas não são os outros que têm um amigo em coma…SOU EU! Estou farta de ver pessoas que amo em risco de vida por causa desses aí, que nem sei como lhes chamar. Percebe? Estou FARTA! – o tom da minha voz já estava demasiado alta e nem me tinha apercebido
- Eu percebo o que sentes Raquel – disse a mãe do Nuno calmamente – Mas não podemos tornar-nos como esses miseráveis…temos que ter fé em como eles vão pagar pelo que fizeram ao meu filho.
- Peço desculpa mas não concordo com isso. Desde há muito tempo que oiço o meu pai dizer que prende criminosos e que no dia seguinte já estão em liberdade. Como quer que acredite na justiça se sei perfeitamente que ela não é posta em prática ou que não é correcta? Como quer que confie nos tribunais se eles não fazem justiça e apenas seguem os seus interesses?
- Acalme-se por favor! – disse o médico – a menina sente muita revolta aí dentro e isso não é nada bom!
- Sim, é verdade! Admito que senti uma enorme revolta contra todos os criminosos existentes na face da Terra. Querem saber porquê? Eu explico! Há cerca de cinco anos, o meu pai tinha ido fazer uma patrulha de mota e foi chamado para uma ocorrência que se tinha passado numa loja. O meu pai acabou por perseguir os ladrões de mota e quando estava prestes a apanha-los, um dos assaltantes virou-se para trás e alvejou-o. Ele caiu de forma aparatosa no chão e levou com a mota no braço e ainda rebolou um bom bocado no chão. Eles acabaram por fugir e o meu pai ficou em risco de vida. Como quer que reage a este tipo de situações se eu vejo constantemente, a saírem impunes dos seus crimes?
- Mas vai ver que desta vez vai ser diferente….
- É o que dizem todos os dias….”vai ser diferente”!
Sentei-me novamente no sofá completamente desgastada e super cansada. O meu corpo estava a dar sinais de fadiga e de sono para além, claro, da minha dor do pé que continuava bem presente.
- Já podemos vê-lo? – perguntou esperançada a mãe do Nuno
- Sim podem. Mas tem que ser um de cada vez e só o podem ver fora do quarto. Ainda não é seguro nem para ele nem para vocês entrarem no quarto.
- Por mim pode ser! Eu sou a primeira! – disse a mãe dele ao mesmo tempo que se levantava. Ela foi encaminhada por uma enfermeira enquanto o médico permanecia no mesmo local.
- Menina Raquel? – chamou-me o médico – Precisamos de ver melhor esse pé…preciso que venha comigo!
Não disse nada e fiz o que o médico me tinha mandado. Dirigimo-nos até ao seu gabinete e ele mandou-me tirar os ténis para ver bem o que tinha!
- Deixa-me adivinhar….ginasta? – disse enquanto observava depois de tirar a ligadura.
- Nota-se assim tanto? – sorri orgulhosa por ser reconhecida do que faço
- Com os pés neste estado ou eras ginasta ou tenista! Tens mesmo isto em muito mau estado…
- Nunca fui muito feliz com os pés que tenho. Sempre me deram demasiadas dores de cabeça…
- Então acho que já não te vão dar mais dores de cabeça…
- Como assim?
- Estás expressamente proibida de voltares à ginástica!
Quando esperava mais nada me pudesse deitar ainda mais abaixo eis que chega a pior noticia da minha vida! Era verdade que já andava saturada de tantas lesões mas estava pronta para enfrentar de novo as competições com um enorme sorriso. Era a minha vida, não me lembro de fazer outra coisa que me fizesse tão feliz como a ginástica me proporcionou. A minha carreira não podia acabar assim, daquele jeito, com uma lesão num pé!
As lágrimas que pensava que tinham secado bem há pouco tempo voltaram em força e as recordações do passado invadiram a minha mente sem sequer pedirem autorização. Deitei-me a chorar na maca onde me encontrava e o médico deixou-me estar. Aquilo não podia estar a acontecer…era mau demais! Eu que estava apostada em conseguir o meu melhor resultado e dar o melhor que tinha o corpo em prol de Portugal! Eu não queria, de modo algum, ser a eterna ginasta de trave.
- Por favor diga-me se existe outra solução? Por favor! – implorei por uma solução que não me fizesse desistir da minha vida
- Lamento menina Raquel, mas é completamente impossível continuar com a sua carreira. Já viu bem como tem o seu pé? – ele olhava-me como se fosse obvio a minha desistência
- Mas eu tive sempre assim o meu pé…
- Vou ser sincero consigo menina. Deve ser uma excelente ginástica para poder competir neste estado mas, se continuar, pode trazer muito mais problemas de saúde para si. Desde problemas de coluna até a um esgotamento da sua planta do pé.
- De certeza que não está assim tão mau! Por favor!
Ele não disse nada e eu percebi a sua resposta. As lágrimas continuavam bem presentes no meu rosto e puxei lentamente o meu pé para cima. Finalmente tive coragem de ver bem como é que ele estava e arrepiei-me só de ver metade em carne viva. Toquei ao de leve na ferida e uma dor insuportável explodiu no meu corpo tornando-o demasiado frágil. Encostei a minha cabeça ao pé e até as lágrimas que já escorriam pelo pé faziam com que o meu corpo se contorcesse de dores. Eu já não podia fazer nada, era o fim!
De novo uma enorme raiva apodera-se de mim e, como o médico estava perto de mim, tenho uma repentina descarga de adrenalina e começo a dar-lhe murros no peito para acordar daquele pesadelo.
- Eu quero acordar! – gritava no meio de soluços
- Raquel… - enquanto tentava, inutilmente, travar a minha fúria. Queria acordar, queria despertar daquele terror, queria sorrir, queria ter paz!
- Por favor leve-me novamente para a realidade! - implorava
- Isto é real…
- Não não é! Eu agora devo acordar certo? Isto é só um pesadelo… - a raiva continuava lá e não a conseguia expulsar para fora – Por favor…. – as forças começaram a escassear nos meus braços e aos poucos o médico foi conseguindo controlar os meus braços.
- Vais-te deitar aqui na maca e descansar um pouco! Vou dar-te um calmante para adormeceres…
- Não!
Desci da maca e peguei nos meus ténis voltando a calçar só um. Mas quando me dirigia para a porta fui travada pelo médico.
- Acredita que não há volta a dar, se eu soubesse dizia mas na forma como o tens não há solução! Puseste em cima do teu corpo demasiado treino e esqueceste que o ser humano não é uma máquina!
- O senhor não percebe, nós temos que ser máquinas! Temos que conseguir tirar tudo o que temos e pôr em competição! Se o fiz é porque era feliz, nunca me arrependi de ter passado a minha infância fechada entre quatro paredes a treinar!
- Eu acredito que eras feliz porque para treinares com dores é só por muito amor…
- Não é só por amor…é porque acreditamos que estamos neste mundo por algum propósito! E acredito que o meu passe por isto!
- Raquel…
- Vou apanhar ar…acha que me podem avisar quando for a minha vez de ver o Nuno?
- Claro…
Saí do consultório e dirigi-me para a saída do hospital, ao passar pela sala de espera reparei que ainda estava na cadeira o pai do Nuno. Passei para o lado de fora do hospital apoiada apenas o mais possível num pé apenas. Sentei-me num banco e fiquei a contemplar o céu. O meu telemóvel volta a tocar e desta vez era a Susana, voltei novamente a desligar a chamada. Uma raiva enorme percorre-mo o corpo e estava prestes a espetar o meu telemóvel contra o chão mas uma coisa prendeu-me o olhar. Era uma fotografia que tinha no ecrã do telemóvel, era eu e a Susana na praia a fazer acrobacias mesmo junto à água.
“Nunca mais posso fazer isto, nunca mais”. As minhas palavras saíram tão sumidas que só as ouvi no meu inconsciente. Fiquei ainda uns segundo a olhar para a fotografia e só foi interrompida com o desligar da luz do telemóvel, mas este voltou a acender desta vez com uma chamada do Rafael e novamente desliguei a chamada! O meu corpo, aos poucos começou a entrar numa falência e sentia-me cada vez mais desgastada fisicamente e psicologicamente.
Ouvi de novo o meu telemóvel a tocar e era a Susana, se calhar era melhor atender, pensei.
- Sim… - arrastei a palavra tornando-a quase inaudível
- Mas tu estás parva? Onde é que estás miúda? – ouvia gritar do outro lado da linha, como não estava com paciência para a estar a ouvi-la gritar desliguei a chamada mas ela voltou-me a ligar
- Voltas a gritar comigo e eu desligo novamente a chamada! – disse muito rapidamente desta vez bem audível
- Mas eu estou preocupada….onde é que estás? O que aconteceu contigo?
- Está tudo bem mas neste momento não me apetece falar com ninguém. Por isso se não te importas, eu preferia desligar a chamada e ficar sozinha com os meus pensamentos!
- Mas amor…por favor diz-nos alguma coisa…
- Amanha depois falamos Su! – desliguei a chamada e nesse momento aparece a mãe do Nuno
- Já viu o seu filho? – perguntei. Ela sentou-se ao meu lado e encarou-me
- Já! Foi agora o pai dele vê-lo. – ela pegou na minha mão – o meu filho já me falou muito de si sabia?
- Trate-me por Raquel, sinto-me melhor! – sorri – Não sabia, de todo, que ele falava de mim, já que nos conhecemos à pouco tempo.
- Seja sincera comigo, o que sente pelo meu filho?
- Quer que seja franca? – cruzei as minhas pernas – ainda não percebi o meu coração! Eu pensava que sentia uma coisa mas agora tudo foi posto em causa. A pessoa que, supostamente, mexia comigo foi completamente posta em causa com o telefonema do hospital!
- Então quer dizer que não sabe o que sente? Que está aqui com ele, sem saber nada? Veio a correr para aqui porquê?
- Não sei! Mas o meu coração puxou-me para aqui…desde o dia em que nos conhecemos eu senti de imediato uma ligação enorme com ele, como se o conhecesse há anos. Como se fizesse parte de mim…Pensei que fosse uma coisa mas agora não sei…
- Pensava que fosse o quê?
- Amizade…pura e simples amizade! Mas agora….tenho tanto medo do que lhe possa acontecer… - as lágrimas voltaram mas mais tímidas
- O meu filho quando chegou a casa, no dia em que se conheceram, ele vinha muito feliz e percebi de imediato que ele tinha encontrado alguém com quem se identificava e fico muito feliz por isso.
- Ele nunca me falou nisso…aliás, a nossa última conversa não se pode dizer que tenha sido muito amigável…
- Então?
- Andava um pouco sensível hoje e bastante nervosa, o que fez com que não estivesse com tanta paciência e acabei por, sem querer, magoa-lo!
- Compreendo…
- Eu juro que não o queria magoar mas eu estava um pouco com as emoções à flor da pele, desculpe!
- Não tens que pedir desculpas, nem sempre acordamos bem-dispostos e com vontade de sorrir! Por vezes acordamos com os pés de fora e embirramos com tudo e todos, à dias menos bons! – ela reparou melhor em mim e viu que estava descalça – porque está descalça só de um pé?
- Oh… - não sabia o que dizer – pois…
- O Nuno disse-me que estava lesionada…é por isso?
- Desculpe mas isso prefiro guardar para mim mesma… - as lágrimas estavam difíceis de controlar e o desejo era cada vez maior para voltar a ser feliz – é melhor assim…
- Claro como queira! Mas tenha cuidado….lesões nos pés são graves e pode ter problemas na movimentação…e sendo ginasta o controlo corporal é muito importante.
- Eu sei…mas vai tudo correr bem…tenho a certeza!
Tentei convencer-me a mim mesma, mas estava mais do que complicado. Para além de ter as minhas emoções completamente trocadas ainda estava a viver a maior perda da minha vida. Olhei para o telemóvel e vi novamente a fotografia, mostrei-a à mãe do Nuno
- O que vê nesta foto? – disse ao mesmo tempo que lhe dava o telemóvel para a mão – por favor diga-me? – ela olhou para ela e ficou alguns segundos a contempla-la
- Vejo duas raparigas completamente radiantes a fazerem o que gostam…
- Porque é que as coisas não podem ser como essa fotografia? Simplesmente perfeito, alegre, único….
- Olhe minha menina, porque senão não daríamos valor ao que temos…temos que saber lutar pelo que queremos para sermos recompensados! Acredite ou não, mas o amor é isso mesmo, um misto de luta com recompensas…
Nesse momento aparece o pai do Nuno vindo de dentro do hospital.
- Se quiseres já podes ir vê-lo – disse-me
- Claro que quero ir! – levantei-me – Obrigada!
Dirigi-me novamente para dentro do hospital com algum custo, ainda por causa das dores que sentia. Perguntei à enfermeira aonde é que era o quarto e depois fui de imediato ao seu encontro. Foi um pouco complicado encontra-lo porque eram muitos quartos e corredores e mais quartos e salas!
Finalmente encontrei bem lá no fundo de um corredor o número do quarto dele, era o 301. O corredor estava apinhado de macas de ambos os lados com doentes e as suas respectivas famílias. Havia um ambiente desgastado e pesado no ar, havia sofrimento por parte das famílias e acima de tudo muita luta por parte dos doentes para melhorarem.
Encaminhei-me para o quarto a passos pequenos, como se tivesse medo do que pudesse encontrar do outro lado. Quando finalmente cheguei ao quarto o meu coração disparou ao vê-lo deitado na cama.
- Raquel – alguém chamou por mim e eu reconhecia aquela voz, a voz que naquele momento era a última que queria ouvir.
Lindo :D
ResponderEliminarAdoro a tua fic.
Quero mais sim??
Beijinhos e continua
InesM