"És a última peça do meu puzzle...és a última peça do meu coração....és a última peça para ser feliz"

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Capitulo 1 - O sorriso da Lua (Parte II)


Voltei novamente à normalidade de pensamentos e continuei expectante a olhar para ambos enquanto a Susana não parava de gritar com o Rafael por causa do que tinha dito sobre nós. Um certo nervosismo estranho e anormal começou a percorrer a minha espinha e uma corrente de ar fez-me arrepiar dando um pequeno suspiro.

- ‘Cê tá com frio? – perguntou o David de uma forma delicada que me fez estremecer de novo

- Não! Foi só uma sensação estranha…nada nada! – desviei o olhar e preguei-o no Rafa e na Su – Ei criancinhas! Vá…terminem lá com a vossa discussão…temos que ir porque já estamos atrasados!

- Eu também acho, antes que parta a cara a este! – disse prontamente enquanto dava uma pequena chapada na cabeça do Rafael

- Olha-me esta! Deves pensar que tenho medo de ti…. – disse insinuando que lhe ia bater

- Qual é a parte que não percebem que já devia estar em casa há mais de uma hora? Andem lá…deixem essas mariquices! – olhei novamente para o Ruben e para o David – desculpem lá estas cenas ridículas mas eles andam sempre nisto!

- Não faz mal…nós os dois também somos um bocado assim… - o Ruben aproximou-se de mim e despediu-se – Nós gostávamos muito de vos poder voltar a ver…principalmente numa prova vossa!

- Ok…está prometido! Nós avisamos o Rafael para vos dizer quando é que podem assistir a um treino ou a uma prova – sorri e quando era a vez de me despedir do David umas luzes azuis a piscarem chamaram-me a atenção. Era a polícia que estava a rebocar um carro mal estacionado, quando um rasgo de luz mostra o carro apercebo-me que era o nosso carro! – Ai minha nossa! Estão a rebocar o nosso carro! – agarrei o braço do Rafael e corri em direcção aos Sr. Policias.

- O carro é vosso? – perguntou o policia mais alto e com o ar mais carrancudo

- Sim – respondeu de imediato o Rafael

- Então vão ter de ir à esquadra pagar a multa para que o vosso carro saia daqui! – disse com uma calma que me irritou

- Sr. Policia por favor não faça isso…nós só fomos uns minutinhos à praia - ele ainda não tinha posto a coisinha amarela na roda mas mesmo assim não teve piedade e colocou-a

- Se tivessem reparado no sinal que está mesmo aqui à vossa frente, que diz claramente paragem e estacionamento proibidos, não teria que vos multar! Lamento mas não podemos fazer nada!

- Mas o meu pai é policia….tenho aqui o meu cartão. Por favor não nos tire o carro…não temos como ir para casa! – supliquei

- Lamento menina…o seu pai até podia ser o primeiro-ministro, estamos apenas a cumprir o nosso dever e os meninos também deviam tentar fazer o mesmo não estacionando em sítios expressamente proibidos. Um resto de boa noite – despediu-se e foi-se embora

- Eu juro que te mato Rafael! Não viste o sinal? Tiraste a carta para quê? – perguntou a Su furiosa

- Desculpem…mas eu não vi o sinal! Mas vocês também podiam ter visto o sinal. A culpa não é só minha – defendeu-se

- Mas és tu que estás a conduzir…não eu! Tu é que tens de estar atento a essas coisas – ripostou a Susana

- Vamos lá ter calminha! Em primeiro temos que descobrir como vamos para casa… - disse tentando resfriar os ânimos e manter algum discernimento. Peguei na minha carteira e só tinha umas moedinhas – tenho que ir levantar dinheiro para irmos de táxi!

- Já viste bem o que nos fazes fazer! És mesmo idiota! – a Su continuava na sua onda de acusações ao Rafael que estava mesmo desolado.

- Nós temos a solução – interveio o Ruben que ainda não me tinha apercebido que estavam mesmo a trás de nós. Voltei-me para eles – nós temos carro, se quiserem nós podemos vos levar a casa. Assim não precisam de ir de táxi a esta hora…além disso pode ser perigoso.

- Não! Nada disso! Nós não queremos incomodar….safamo-nos bem sozinhos! – virei-me de costas e novamente aquela voz fez-me arrepiar da cabeça aos pés

- ‘Cês não incomodam nada mesmo! A gente não vai ficar descansados se forem de táxi… - a sua voz fazia-me tremer de uma forma inexplicável. Virei-me aos poucos em direcção deles e pela primeira vez vi o seu sorriso incrivelmente perfeito

- Quê, se calhar é melhor aceitarmos! Sabemos perfeitamente como é perigoso andarmos por estas horas sozinhos…

- Eu só não quero incomodar…se calhar vocês vão dar uma grande volta por nossa causa….não queremos isso de modo algum! Para alem de não terem responsabilidade nenhuma sobre nós!

- Isso não é verdade. Pelas quantidades de vezes que o Rafael falou de vocês, atrevo-me a dizer que vos conheço há anos! Além disso a vossa casa não é para ali – apontou para a direita e o Rafael disse que sim – Então a nossa casa também é! Nada de discussões….está decidido!

Acabei por me resignar às evidencias….era perigoso andarmos por aquelas horas de táxi. A Susana estava delirante por entrar num carro de um jogador de futebol sem ser do Rafael. Quem acabou por distribuir as pessoas foi o Ruben que acabou por me pôr a mim sozinha no carro dele e o David com a Susana e o Rafael.

De certa forma fiquei aliviada, aqueles arrepios que vinham do coração estavam-me a deixar com os nervos em franja. Despedi-me do Rafael e da Susana com dois beijinhos e do David com um simples “adeus”. Combinamos que quando cada um chegasse a casa que telefonasse para ficarmos descansados.

Entrei dentro do carro do Ruben e ele pôs-me de imediato à vontade.

- Olha eu sei que pareço quase um estranho mas podes ficar descansada…eu não te vou fazer mal.

- Eu sei…o Rafael fala muito bem de vocês só que ele nunca gostou muito que fossemos ver os treinos dele ou até mesmo os jogos. Dizia que ficava muito nervoso…

- É! Alguns jogadores não conseguem jogar tão bem com plateia…mas ele joga muito bem mesmo. Daqui a uns meses já deves estar na equipa A.

- Sim…espero que sim! Ficava muito feliz se ele jogasse na equipa principal do Benfica! Mas para isso ele tem que começar a deixar de ter medo que assistamos aos jogos dele.

- Mas a família costuma assistir…já conheci a irmã dele….

- Sim…ele não fica assim se for a família mas se formos nós fica todo stressado. Parece que tem medo de falhar à nossa frente.

- Ser guarda-redes não é fácil….tens sempre o peso da equipa a trás de ti…

- Eu sei…compreendo perfeitamente. Mas eu também posso falhar….posso cair e estragar o meu exercício…eu queria tanto que ele confiasse em nós e que nos deixasse assistir a um jogo dele!

- Vais ver que sim…ele é um excelente guarda-redes. Vai ter um bom futuro pela frente!  

- Claro que sim…nem duvides disso…muito rapidamente vais dividir os balneários com ele – disse com um enorme sorriso que foi retribuído por ele.

- Então e tu? O Rafael disse que eras a melhor ginasta do planeta…

- Ele é um exagerado….não sou nem de perto nem de longe a melhor…ainda não tive ocasião para mostrar o meu valor.

- Mas ele disse que todos consideravam que tu eras a melhor na trave! Como é?

- Sou tão boa na trave que ainda nunca fui a nenhuns campeonatos mundiais nem europeus…

- Como assim?

- Digamos que, a uma ou duas semanas das provas importantes, fico sempre lesionada ou do meu pé direito ou do meu joelho esquerdo que são as minhas duras lesões!

- Sempre mas sempre? Nunca pudeste ir a nenhuma competição?

- Desde os meus doze anos que me dizem que tenho técnica e talento para ganhar a medalha de ouro na trave mas sempre que estava inscrita acontecia-me sempre uma lesão…agora é constantemente…principalmente do meu pé! O meu treinador diz que é do esforço que faço para melhorar e para fazer figuras nunca antes feitas, o resultado final são quedas e muitas dores!

- Mas o facto de treinares para melhorares é algo de louvar…acho que nunca deves desistir de participar…se dizem que és mesmo boa então tens de ter confiança em ti mesma…

- É muito fácil dizer mas, basicamente, ando a treinar para nada! Se eu não amasse tanto a ginástica, já teria desistido há muito tempo….já pensei em mudar-me para as paralelas assimétricas mas não é a mesma coisa….

- Tens algumas medalhas?

- Sou campeã nacional de trave e de All Around Final nos Europeus do ano passado, tive sorte em poder competir mas quando estava na hora da competição de trave o meu joelho decidiu complicar as coisas e tive que desistir. A Susana é campeã nacional de solo e de paralelas assimétricas. Já tive nuns mundiais mas foi só para disputar a classificação para as paralelas que era o único aparelho que podia fazer sem me magoar muito no pé. Não acabei mal qualificada, fiquei em 6º lugar mas sentia tantas dores que acabei por nunca mais voltar a competir com o pé assim!

- Vais ver que este ano vai ser diferente….vais participar nos Europeus e vais ganhar! – disse tentando incentivar-me

- Espero bem que sim…já tenho quase 18 anos e por isso já estou quase no fim da minha carreira….tem que ser este ano ou no próximo senão devo desistir de tentar participar!

- Se desistir acho que é um erro…eu ainda nunca te vi realmente na trave mas se for verdade o que dizem, por favor não desistas!

- Vamos ver o que isto vai dar… - entretanto ele pára o carro num local onde não era a minha casa e nem sequer conhecia o local – Onde é que estamos? – perguntei

- Estamos em casa do David! Lembrei-me que me esqueci de uma coisa em casa dele e preciso dela para amanha! – ao mesmo tempo que saía do carro – se quiseres podes vir…

- Não…deixa estar! Eu fico aqui…

- Se queres…mas tem cuidado sim?

- Está bem!

Pus-me a pensar no que tinha dito, no facto de não desistir do meu sonho. Era tão difícil continuar a lutar contra o meu corpo, contra as lesões que insistiam em aparecer, do meu pé direito sempre a dar-me problemas. Mas queria tanto, pelo menos uma única vez, puder competir nos mundiais ou nos europeus, já nem sequer pedia os Jogos Olímpicos, era simplesmente uma única competição.

Saí do carro para ver, realmente, aonde estava. Quando saí, preparei-me para encostar a porta do carro mas desequilibrei-me e ao tentar pôr o meu pé direito no chão para me equilibrar, coloco-o mesmo em cima de uma pedra que me rasga o plantar do pé. Uma dor insuportável percorre-me pela minha perna a uma velocidade incrível.

- Ai! – solto um pequeno gemido com o esgar de dor intenso . Ao tirar a sandálias que tinha calçado (de sola muito fina) vejo a sandálias cheia de sangue e toda a zona a seguir aos dedos completamente aberta. – Não acredito nisto! – inconscientemente, lágrimas começam a formar-se nos meus olhos e a visão começa a ficar muito turva. Das últimas vezes que o meu pé acabava assim era mais uma competição que ficava de fora.

- Raquel? – aquela voz voltou-me a criar uma sensação inexplicável. Viro a cara lentamente em direcção há voz que o meu corpo tanto vacilava. Ao encara-lo a expressão dele modificou-se de imediato - ‘Cê tá chorando? – disse com a voz visivelmente preocupada e angustiada

- Por favor tira-me daqui – supliquei ainda com a mão no pé a tentar estancar o sangue que teimava a não querer parar.  


2 comentários:

  1. Está lindo :D
    Espero bem que ela fique bem!
    Agora quero mais sim?!

    Beijinhos Inês**

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  2. esta muito bom, continua
    ficarei a espera do proximo
    beijinhos

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