Acordei com o despertador a tocar, já era a terceira vez que o desligava por isso já devia estar atrasada. Levantei-me apressadamente pois já eram quase 6h30, vesti-me o mais rapidamente possível sem nunca tocar com o pé no chão e muito rapidamente já estava pronta para sair.
Uma enorme quantidade de adrenalina percorria o meu corpo enquanto descia as escadas correndo o melhor que conseguia. Estava a um mero passo de entrar numa fase importante da minha vida na qual se tudo decidiria. Dei uma corridinha (o mais rápido que consegui correr com um pé ferido) até chegar à casa do Rafael aonde ele já devia estar á minha espera.
Ao chegar ao pé dele também lá estava a Susana, os meus saltinhos chamaram demasiado á atenção e a Susana agarrou-me de imediato.
- Como é que estás? – disse enquanto me soltava – Como é que está o teu pé?
- Estou melhor….a noite fez-me bem. Mas mesmo assim continuo com dores….
- O que se está a passar? Não estou a perceber nada…magoaste-te? – perguntou preocupado o Rafael
Expliquei-lhe toda a história da minha nova lesão e ele não reagiu muito bem, começou a reclamar porque não lhe tinha contado o que se tinha passado. Depois de o acalmar fomos finalmente para a faculdade.
Apanhamos o metro no Oriente e em quarenta minutos já estávamos na faculdade. Ao chegarmos á entrada já se podia ver que os veteranos estavam a dividir os caloiros por turmas. Era naquele momento que nos iríamos separar, de uma maneira ou outra as nossas vidas iriam tomar um rumo diferente.
Despedimo-nos e cada um de nós foi ao encontro da nova turma. Os veteranos mandaram-nos fazer uma data de coisas muito engraçadas e ao mesmo tempo nojentas ao longo do dia. Sabia perfeitamente que aquilo fazia parte de um ritual de iniciação a uma nova etapa e não a queria perder por nada.
Entretanto uma veterana veio falar comigo
- És a Raquel Alves? – perguntou-me
- Sim, Veterana Sofia! – olhava fixamente para os sapatos da veterana
- Tenho um recado para ti, mandaram-me dizer que o teu treinador substituto é daqui da faculdade por isso os teus treinos serão feitos no ginásio da faculdade. Por isso estás dispensada, o teu treinador deve estar à tua espera.
- Obrigada Veterana Sofia!
Estava ansiosa por saber quem iria substituir o meu treinador que tinha ido para a Finlândia ser operado. O meu treinador devia ser um dos melhores do mundo pois foi ele que me fez ser uma boa ginasta.
Andei à procura do ginásio e depois de muitas voltas à faculdade lá encontrei o ginásio. Antes de entrar descalcei-me e entrei lentamente, o ginásio tinha imensas condições e os aparelhos gímnicos estavam em perfeitas condições. Olhei em redor e não vi ninguém dentro do ginásio, o meu novo treinador ainda não tinha chegado.
Dei uma volta por todos os aparelhos e até gostei da disposição dos aparelhos pelo espaço. Havia ao lado de cada aparelho uma grande caixa de magnésio pronto a ser usado. As minhas mãos começaram a pedir inconscientemente, que eu pusesse o magnésio nas mãos e que saltasse para cima de qualquer aparelho.
Ao passar pela trave não me consegui conter e acabei por tirar a roupa que tinha vestido ficando apenas em calções e top e subi para cima da trave. Pus-me de pé e uma dor no meu pé direito consumiu de novo a minha perna simplesmente por ter dado dois simples passos. Acabei por me sentar e uma dor no coração devastava-me o corpo, sem dúvida nenhuma que a dor no meu coração era superior aquela dor no pé.
Levantei-me de novo e tentei dar dois passos de novo, mas o resultado acabou por ser o mesmo. Caí da trave e nesse momento entra o meu treinador
- Raquel? – olhei para trás e era um jovem alto, super bem estruturado, com uns músculos de todo o tamanho e com um corpo divinal – Raquel Alves?
- Sim! Deve ser o meu novo treinador suponho…
- Acertaste. O meu nome é Bruno e vou ser o teu treinador nestes meses em que o teu treinador estiver na Finlândia – chegou-se ao pé de mim e olhou-me de cima a baixo – tens aqui uma bela estrutura física…mas o teu treinador disse-me que tens um joelho esquerdo sensível..
- Pois….e não só!
- Já vi que sim….a queda que deste mesmo agora não é de quem tem uma técnica tão apurada como a tua. O que se passa? O teu pé voltou a fraquejar?
- Pois…parece que sim…ontem acabei por me aleijar numa pedra e rasguei o pé. – ele olhou para o pé e puxou-me a perna para cima e observou a minha ferida. Esteve algum tempo a olhar para aquilo ainda um bom par de minutos e depois voltou a pôr o pé no chão.
- Vemo-nos daqui a um mês! – aquela frase ecoou na minha cabeça de uma forma fantasmagórica, ele dirigiu-se de imediato para a saída mas eu travei-o
- Daqui a uns mês? Como assim? – as palavras custavam-me a sair e o medo das respostas era cada vez maior
- Raquel, estás lesionada logo não podes treinar. Para esse pé ficar bem precisas de um mês pelo menos para ficar em condições!
O meu pior pesadelo instalou-se na minha vida. O que menos queria que acontecesse acabou por se concretizar, o meu maior pesadelo acabou de entrar de rompante na minha vida. Uma fina camada de água formou-se nos meus olhos e depressa se transformou em lágrimas.
- Por favor….eu não posso ficar sem treinar… - as palavras não me saiam decentemente
- Não percebes que se treinares será pior…tens uma lesão grave no pé. Não podes pôr em risco um possível lugar nos Europeus…
- Europeus? Os Europeus estão tão longe como de eu conseguir superar esta lesão! Estou condenada em ser a eterna candidata á medalha de ouro.
- Não digas isso porque não é verdade…
- Ainda por cima se não me deixar treinar estou condenada ao fracasso…
- Raquel por favor! A lesão que tens é curável, vais ver que no próximo mês já estás bem…
- Não vou! No próximo mês é o joelho que não me deixa fazer os saltos e tenho que ficar mais um mês de descanso, depois é novamente o pé….estou FARTA! Entende, FARTA! Não aguento mais esta pressão!
- Raquel…
Saí do ginásio lavada em lágrimas, tentei procurar a Susana mas não a encontrava em lado nenhum da faculdade. Procurei por tudo o que era sítio mas ela parecia que tinha sumido, tirei o telemóvel da mala para lhe telefonar mas estava sem bateria. A raiva começou a percorrer o meu corpo, precisava urgentemente de falar com alguém.
A minha última solução era o Rafael, eu sabia que ele odiava que fossemos ver os treinos dele mas teve que ser. Fui a correr para o Seixal pois ele foi chamado pelo mister para treinar com a equipa A por causa de uma lesão noutro guarda-redes.
Cheguei ao Seixal ainda o treino não tinha acabado, entrei para as bancadas para ver o treino e procurei de imediato o Rafael. Ele não aparecia no meu campo de visão mas depois de alguma procura lá o vi, fiquei á espera que ele me visse e quando isso aconteceu fiz sinal para vir ter comigo. Fui até às grades e esperei por ele.
- Quê? Porque estás a chorar? O que se passou? – perguntou ao mesmo tempo que segurava a minha mão
- Eu preciso de falar contigo….por favor! - supliquei
- Espera só cinco minutinhos que é o tempo de acabar o treino e já vou ter contigo. Podes esperar lá fora está bem? – apenas disse que sim e voltei de novo para os bancos.
Assentei-me e o desespero aumentava cada vez mais, o medo de perder tudo era assombroso. Não queria deixar a ginástica de modo algum mas, aquele sofrimento estava a dar cabo de mim. Todas as expectativas que criava em redor de um campeonato acabavam sempre por se esfumar por causa de uma maldita lesão.
Observei o treino para aliviar a cabeça e o meu olhar chocou com o David, novamente uma energia absorveu o meu coração a qual me fez corar. Ele sorriu mas naquele momento não conseguia sorrir, ele foi ter com o Ruben e por aquilo que dava a entender devia ser de pois estavam a olhar na minha direcção. Depois foram ter com o Rafael e continuavam a falar e olhar para mim por isso deduzi que eu fosse o assunto em questão.
Quando o treino acabou, saí rapidamente das bancadas e fiquei á espera que o Rafael. Quando ele apareceu ainda com o seu equipamento de treino corri de imediato na sua direcção. Abracei-o como se não houvesse amanhã e ele retribui o abraço e senti-me a mais segura possível. Depois de um par de minutos assim, simplesmente, eu quebrei o abraço e olhei-o nos olhos.
- Quê já me podes explicar o que se está a passar? – perguntou-me
- A minha vida está um caos…
- Não estou a perceber…vamo-nos sentar primeiro – levou-me até a uns bancos e depois de me sentar é que comecei a falar
- Vou ter que ficar mais um mês parada Rafa…o meu treinador não me deixar treinar com o pé neste estado…
- Faz ele muito bem….não podes treinar no estado em que estás, assim é que nunca recuperavas…
- Mas de certeza que tu não estás a perceber o que realmente se está a passar…eu não vou voltar a treinar…
- Ei…mas do que é que estás a falar? Nem penses sequer em desistir…
- Mas neste momento é o que apetece fazer…estou farta destas lesões, não aguento mais…estou sempre a desiludir-me, quando penso que posso melhorar acontece sempre alguma coisa que me deita a baixo.
- Ouve-me! – ele fez-me olhar para ele – desistir não te vai trazer mais alegrias, não vais sentir-te mais aliviada se não treinares. Vai ser ainda pior….vais ficar em casa sem fazer nada e a pensar no que poderias estar a fazer se não tivesses desistido. Eu sei que estás farta que te digam isto, mas tu és fantástica e não podes desperdiçar o teu talento, eu tenho a certeza que ainda tens muito para dar à ginástica.
- Não sei…
- Mas sei eu! Podes não treinar na trave, nem no solo e muito menos no cavalo mas tenta nas paralelas. Treina as posturas, a tua flexibilidade, a tua coordenação motora…tens varias coisas que podes fazer sem te magoares mais.
- Achas que o meu novo treinador vai nessa?
- Vai se não exagerares….desde que não esforces demasiado o teu pé ou até mesmo a perna…
- E se eu tiver a fazer isto tudo para nada?…já começo a ficar farta que digam que vou ficar bem mas depois nunca estou!
- Raquel, vais ver que num instantinho isto não vai passar de uma fase menos boa e que ainda vais dar muitas alegrias a Portugal.
- Espero bem que sim….espero mesmo que tenhas razão! – abracei-o de novo – obrigada chatinho!
- O que é que me chamaste oh pirralha?
- Nada nada….
Nesse momento chegam já arranjados o David e o Ruben e vieram ter connosco.
- Olá, está tudo bem? – perguntou o Ruben enquanto eu limpava a cara
- Oi – disse também o David
- Estou melhor que ontem por isso já é muito bom…
- Ainda bem…a gente ficou preocupado com você…não sabíamos se o seu pé tava melhor ou não!
- Melhor está um pouquinho mas ainda me dói um pouco a andar…tenho alguma dificuldade no deslocamento…
- Quê esperas por mim enquanto vou tomar banho? É um instantinho…
- Pois claro, uns instantinho….digo antes uma hora ou mais! Mas está bem…vai lá que fico aqui á tua espera…
- Estás muito engraçadinha hoje! – levantou-se e deu-me um beijo na testa – até já!
- Até já chato! – e deitei a língua de fora
- Bem eu tenho que ir – disse o Ruben – desculpa não ficar aqui mas tenho uns compromissos que tenho mesmo que cumprir…
- Oh…não tens que pedir desculpa…além disso posso ficar aqui sozinha muito bem!
- Nem pensar…eu fico aqui com você até o Rafael chegar, e sem discussão!
- Com tanta determinação nem me arrisco a contradizer-te!
- Pronto, assim fico mais descansado. Vê se apareces por aqui mais vezes com a tua amiga…está bem? – pediu o Ruben
- Combinado! Então até a um dia destes – despedi-me dele
Quando me voltei a sentar, olhei para o David que estava a sorrir, o seu sorriso era qualquer coisa de extraordinário. Por incrível que pareça fez-me sorrir, pateticamente, pois não sabia o porquê de sorrir! Apenas me apetecia sorrir…

Olá, começei a ler a tua fic hoje, e estou a adorar.
ResponderEliminarPelo que vi, tens imenso geito para escrever, continua, quero ver esta historia a crescer sim??
Quando é que voltas a postar??
Parabens e continua
Beijinhos
InêsM.
Raquel e David?
ResponderEliminarSusana e Ruben?
XDDDDD
Parece - me bem :b
continua.
beijinhos
Bem AMEII!!
ResponderEliminarNão quero que ela desista da ginástica *__*
Quero mais sim??
Beijinhos Inês**
esta lindo, gosto muito
ResponderEliminarparabens e continua
beijinhos