O David pegou de imediato em mim com cuidado para não me magoar mais e levou-me para casa dele. No caminho para a casa dele passamos pelo Ruben que vinha em direcção ao carro.
- O que se passou? – perguntou ao ver sangue a escorrer do meu pé – Quem te fez isso?
- ‘Cê pare de fazer perguntas e me tire do bolso as chaves de casa! – ordenou e o Ruben abriu o mais rapidamente a porta de entrada. Subimos pelas escadas a correr ao mesmo tempo que largava um rasto de sangue pelas escadas. O Ruben voltou a abrir mais uma porta e o David pôs-me num sofá – Vai buscar algo com água! – disse para o Ruben e ele fê-lo – ‘Cê vai ficar bem? – disse tentando acalmar-me
Estava a sentir uma dor muito forte por minha culpa. Se eu não tivesse calçado as sandálias nada daquilo estava a acontecer, sabia perfeitamente que o meu pé ainda não estava a 100% e agora tinha acabado de estragar tudo. A minha réstia de esperança de voltar a competir foi completamente abalroada por uma simples pedra da calçada.
O Ruben apareceu muito rapidamente com uma bacia com água quente e pô-la à minha frente. Pus lá o meu pé e o sangue começou a envolver a água, senti um alívio de dor que me fez, pela primeira vez, parar de chorar com tanta intensidade.
- Olha onde é que tens as ligaduras para pôr debaixo do pé dela? – perguntou o Ruben
- Está no armário, na segunda gaveta a contar de baixo – disse de imediato o David – como se tá sentindo?
- Muitas dores… - o David tirou o meu pé da água e tentou perceber o estado do meu pé
– ‘Tá muito feio isto!
– Acredita que não está tão feio como o meu coração…
Quando tocou na ferida provocada pela pedra, num reflexo, a minha perna é projectada para junto de mim
– desculpe….
- Não faz mal – voltei a pôr o pé na água e o sangue continuava a escorrer. Entretanto chega o Ruben com uma mala de primeiros socorros e tira lá de dentro ligaduras para envolver o meu pé. Ele tirou de novo o meu pé delicadamente para não me magoar e limpou a água em redor da ferida.
- Sou uma idiota… - desabafei – neste momento tenho a minha carreira em risco porque fui inconsciente…nunca devia ter ido há praia…nunca devia ter calçado estas estúpidas sandálias…não devia ter saído de casa
- ‘Cê não tem culpa do que aconteceu….podia se ter machucado em casa…
- Mas não foi em casa….podia ter evitado! – respirei fundo para tentar não pensar em coisas negativas
- Vou desinfectar primeiro tá bom? Só vai doer um pouquinho… - disse e eu assenti que sim. Deixou o meu pé pousado na beira da bacia e tirou um bocado de algodão e pôs um líquido que não reparei qual foi. Voltou a pegar no pé… - 1,2,3 – colocou o algodão em redor da ferida que me fez desejar cortar o pé, um gemido alto fez-se ouvir em toda a casa – me desculpe mas não posso fazer com que tenha menos dor… - as lágrimas voltaram a assombrar a minha face enquanto o David, com imensa delicadeza continuava a desinfectar-me a ferida.
A suavidade com que tocava na minha pele era de uma forma tão estranha e irreal, era como se ele se tratasse do próprio algodão, suave e perfeito. Cada toque dos dedos dele em redor da ferida não me provocava dor mas sim um arrepio enorme pela espinha. Cada sopro que fazia antes de colocar o algodão fazia vacilar o meu coração querendo sair do meu corpo. A dor continuava lá, continuava a fazer-me chorar mas aqueles gestos, de uma forma magnífica, acalmavam a dor….podia não acabar com ela mas tornava-a mais suave.
Depois de desinfectar tirou a ligadura e começou a pôr em redor da ferida apertando com força para que esta ficasse bem presa. Mesmo fazendo força, não me magoava, era uma força controlada simplesmente para manter a ligadura segura. Entretanto recebo um telefonema da Susana
- Sim amor… - disse tentando não mostrar a dor que estava a sentir
- Que vozinha é essa Raquel? – ela conhecia-me demasiado bem para saber se estava tudo bem ou não
- Não é nada Su…
- Ai ai! Raquel o que se passou? Já estás em casa? – agora ela estava preocupada e por isso não lhe podia mentir
- Não…ainda não estou em casa…. – disse tentando controlar as lágrimas
- Como não? Então aonde estás?
- Estou em casa do David….aconteceu uma coisa…. – a minha voz começou a falhar com o medo do que pudesse vir a seguir…
- O que aconteceu Quê? Por favor diz!
- Bem… - a voz falhava cada vez mais – rasguei o meu pé… - disse no meio de soluços provocados pelo choro. O Ruben que estava ao meu lado envolveu a minha cabeça com os braços dele e pediu-me calma
- Rasgaste? – a voz dela denunciava uma tentativa falhada de controlar também ela o choro – Tem calma Raquel…vai tudo correr bem…
- Correr bem? – uma raiva imensa começou a percorrer o meu corpo – Susana é a segunda vez em dois meses que o meu pé rasga! Como queres que reaja bem? O treinador tinha razão….o meu pé não aguenta os meus treinos!
- Raquel….
- Não é Raquel nem meio Raquel, sabes que tenho razão! O meu pé já passou o limite de validade há muito….a partir desse momento só estou a sofrer por pensar que posso chegar a algum lugar…
- E tu também sabes que isso é mentira Raquel! No ano passado tiveste nos Europeus quando ninguém contava…só tens que lutar contra as lesões….vais ver que vais ser recompensada!
- Não foi a mesma coisa…tu sabes disso! – oiço um bip em como alguém me estava a tentar telefonar – O Rafa está a telefonar-me…
- Por favor liga-me depois a dizer-me como estás…
- Está bem….até já – desliguei a chamada e atendi a outra – Sim Rafa?
- É só para te dizer que já estou na cama pronto a dormir para amanha levantar-me cedo! Amanhã às 6h45 à porta de minha casa? – ele falou tão rápido que nem tive tempo de dizer nada
- Sim…está combinado….
- Está tudo bem? Já chegaste a casa?
- Sim…está tudo bem mas ainda não cheguei a casa – menti
- Hummm…está aí qualquer coisa estranha mas está bem! Vemo-nos amanha Quê! Beijinhos
- Beijinhos – desliguei a chamada e reparei que o David já estava a terminar pois já estava a limpar o meu pé.
Ao terminar tirou a bacia debaixo dos meus pés e pousou-o no chão delicadamente para não me magoar.
- Como ‘ce tá sentindo agora?
- Muito melhor….obrigada! – agradeci – nem sei como vos agradecer…
- Não tens que agradecer…fui eu que te deixei sozinha no carro…não o devia ter feito! – disse o Ruben bastante triste
- Nem penses que a culpa é tua! É simplesmente minha, eu é que não devia ter calçado as sandálias….tinha a plena noção que o meu pé não estava bem e não o podia expor a tantos problemas.
- ‘Cê consegue andar? – perguntou-me o David, levantei-me devagar com a ajuda dele e tentei caminhar um pouco. Conseguia mas era com imensa dor…encaminhei-me até à janela e espreitar através dela vendo a Lua.
Estás a sorrir para mim, estás?, disse para comigo enquanto a mirava, Sorris com as minhas desgraças é? Realmente não te entendo!
Levantei o meu pé direito para ver como estava por baixo e, graças a Deus, ainda não se via sangue nenhum. Sinal de que podia estar a ser estancado e que assim melhorava mais rapidamente. Voltei novamente para onde estava com algum custo mas melhor do que a primeira vez e sentei-me novamente no sofá.
- Bem eu agora vou levar-te a casa aonde já devias estar… - disse o Ruben ao levantar-se
- Obrigada mais uma vez…aos dois! E desculpa David por ter sujado a tua casa… - havia um rasto ténue de sangue desde a entrada da casa até ao local aonde me encontrava – devia limpar isto tudo!
- Ei! ‘Cê nem pense nisso não….agora ‘cê vai para casa descansar que é o que precisa! Eu depois limpo isto!
- Tens a certeza? Olha que eu posso limpar…não preciso do pé para limpar o chão…
- Nem pensar! Não me sentiria bem se eu deixasse você limpar o chão…
- Se é assim…então acho que podemos ir embora! – disse para o Ruben
- Sim vamos – o Ruben despediu-se do David – passas por minha casa antes do treino? – perguntou
- Sim…eu vou lá! – desta vez fui eu que me despedi do David.
Algo fora do normal percorreu o meu corpo, o perfume que provinha do seu corpo era qualquer coisa de extraordinário que me faz desejar parar o tempo. Ao tocar na sua face, o meu corpo sofre uma combustão de adrenalina que me faz corar. Tentei esconder o vermelho das minhas maças do rosto afastando-me rapidamente dele. Apenas sorri, quando já estava do outro lado da porta, para ele em sinal de agradecimento.
A viagem até casa correu rapidamente e sem mais nenhum problema. Ao chegar a casa acabei por telefonar à Susana e ao Rafael e deitei-me pouco depois completamente derrotada pelo cansaço. A minha mente apenas viajava pelas imagens da trave o que me deixava completamente desolada!
Adorei, ta lindo!
ResponderEliminarQuero ver como a historia rola :D
Beijinhos
Está lindo, lindo +__+
ResponderEliminarAdorei!!
Agora quero mais! Sim?
Beijinhos Inês **
esta muito bom, parabens
ResponderEliminarestou anciosa pelo proximo, ficarei a espera
beijinhos
continua
adorei
ResponderEliminarcontinua